Momento Lifetime: Mulheres psicoatípicas também sofrem abusos


O caso da bacharel em direito Ariadne Wojcik, que se suicidou após deixar uma mensagem em seu Facebook denunciando um professor por assédio, levanta a discussão muitas vezes deixadas de lado de que mulheres com distúrbios psiquiátricos também sofrem assédio. O problema é que ninguém acredita nelas. Escrevi sobre lá no blog do Momento Lifetime, clica aqui.




Entrevista: Phillip Long e o Manifesto de uma pequenina vida


O Phillip Long lançou uma campanha no Catarse para financiar seu décimo primeiro álbum, o Manifesto de uma pequenina vida, e eu bati um papo rápido com ele sobre o projeto, o papel de um compositor e o estado atual da música brasileira independente. É a quarta entrevista que faço com o Phill e, como sempre, as respostas são ótimas. Saiu lá no Scream & Yell.






diários, doismil&nove


Não gosto de ser vista como objeto sexual nem tratada como tal. Não gosto que me apalpem  que levantem minha roupa. Isso pra mim é um desrespeito, do tipo que só fazem com as putas nos puteiros porque elas são pagas para aturar esse tipo de coisa. Não gosto que tirem a minha roupa, me apalpem ou finjam me abusar sexualmente. Não gosto que coloquem a boca e as mãos em mim sem o meu consentimento. Para mim isso é estupro. Não tem graça e não deve ser feito nenhuma vez. Como será que se sente alguém que do nada tem a roupa levantada e os seios expostos? Só um completo babaca faz esse tipo de coisa. Tenho muita, muita raiva desse tipo de sexismo que permite que otários achem natural esse tipo de brincadeira, esse tipo de atitude. Deve ser típico desses espectadores de programas degradantes de humor duvidoso. Queria também expor as barrigas gordas e os peitinhos masculinos ou abaixar suas calças para vê-los desconcertados com suas bundas e pintos moles de fora. Mas eu não me rebaixo. Não com atitudes, mas uso essas palavras. São as armas que eu sei usar.

Triste. Postei este texto no fotolog e o E agora está muito puto para falar comigo. Mas eu não podia evitar. De certa forma, queria mesmo que o texto o atingisse, mas também queria falar pelas mulheres que sofrem essas violações ou são induzidas a gostar delas para serem "boas" e "safadas" o suficiente para seus companheiros não procurarem na rua. Eu já havia tido uma meia conversa com ele sobre isso, mas não havia explicado tudo. Ele tentou se defender dizendo que só tinha feito essas coisas poucas vezes e que achava grava na minha reação. A graça era o desconcerto e não o ato erótico em si. Ele disse também: "Desculpa. Se você não gosta, não faço mais". Mas para mim não foi o suficiente, não é tão simples assim. Se trata de todo um sentimento de vergonha e humilhação e banalização e de ser usada como um brinquedo divertido, em vez de uma pessoa que tem reações e sentimentos e discernimento. Isso não se ajeita com frases simplórias ou uma mera conversa. Não se trata de não querer que isso aconteça mais; se trata de mudar as cabeças para que elas percebam o quão baixo e sem graça são essas atitudes. E por isso eu briguei e escrevi na internet. Porque pra mim não se trata apenas de uma coisa íntima de casal, se trata de um reflexo de um pensamento machista. O texto está lá para qualquer um ver, qualquer um que pense em se aproximar de mim. Pode ser E ou qualquer outro.

Por enquanto, não sei o que fazer ou dizer, já que não estou inclinada a me desculpar, embora me sinta ligeiramente arrependida. Entendo como a agressão inesperada e a exposição de maneira ridícula e grotesca deve ter mexido com ele, que me imaginava incapaz de fazer algo assim. Só que não me sinto mais em posição de aceitar tudo ou de ser delicada só porque ele é bonzinho e companheiro. Eu quero ter voz ativa e não ser apenas a donzela que tem todos os seus pedidos atendidos.

***

Ele me ligou dizendo que precisava de um tempo sozinho e que a gente podia conversar na sexta. Tudo isso depois de dizer que não tinha nada para falar comigo, que eu era baixa e filha-da-puta. Que eu não prestava e que tinha nojo de mim, entre outras coisas. Sexta pra mim é um dia cheio, tenho psicóloga e eu disse que não daria. Espero poder contar tudo isso a ela e que ela me ajude a resolver essa situação. Eu ando triste e desanimada mas não sei se é só por isso ou por outros motivos. Tenho gostado mais da presença dele como amigo do que como namorado. 2 anos jogados fora?

Setembro, 2009

52 FILMES DIRIGIDOS POR MULHERES: MÊS #5



Esses foram os filmes escolhidos em setembro. As dicas são postadas semanalmente no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen e também no Tumblr


Entre Nos (Idem, EUA, 2014) 
⭐⭐⭐⭐

O independente Entre Nos, da colombiana Paola Mendoza, com codireção de Gloria La Morte, é inspirado em uma situação ocorrida com a diretora quando ainda pequena: tendo imigrado há duas semanas de Bogotá para Nova York, ela, sua mãe e irmão são abandonados pelo pai, que vai para Miami sem deixar um endereço e nem responder a telefonemas. Sem trabalho, sem dinheiro e sem saber falar inglês, Mariana, a mãe, começa a tentar vender empanadas, sem muito sucesso, até que a família acaba sendo despejada do pequeno apartamento onde moravam. Na rua, Mariana começa a catar latinhas e dormir ao relento com os filhos, dependendo da generosidade alheia até conseguir juntar dinheiro suficiente para poder alugar um quartinho. Como se não bastasse a fome a pobreza, a mulher ainda descobre uma gravidez indesejada e, não tendo meios de conseguir um aborto legal, recorre aos clandestinos.

Apesar de tanto drama, o tom é otimista e inspirador, focado mais na garra da mãe em fazer o que fosse preciso para garantir o bem estar dos filhos e conseguir dinheiro. Além de mostrar a vulnerabilidade de uma mãe e dona de casa que deixa seu país de origem para acompanhar o marido e o desequilíbrio entre as possibilidades de escolhas entre o homem e a mulher, as diretoras procuram também jogar luz sobre as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes nos EUA.
 


Mãe só há uma (Idem, Brasil, 2016)
⭐⭐⭐ 

O mais recente longa de Anna Muylaert foi inspirado na história do menino Pedrinho, que durante a adolescência descobriu ter sido roubado na maternidade. Aqui, a diretora explora ainda as descobertas de sexualidade e identidade de gênero do protagonista, Pierre, que, se já dava pistas naturais de uma identificação com o gênero feminino, após ver ruir a família que acreditava ser sua, a vida que levava e a própria identidade (bruscamente passa a ser chamado de Felipe quando é obrigado a ir viver com sua família biológica), passa a explorar sua transição publicamente, como uma forma de afronta e resistência. 

O filme é uma produção menor do que ‘Que horas ela volta?’ e até mais convencional, não procurando se aprofundar e desenvolver os temas que levanta, embora sejam tratados com cumplicidade. Apesar disso, é bacana ver o jogo de ambivalência e contraste com que ele opera. Arrisco até uma extrapolação pra observar que essa dualidade aparece até na escolha do elenco: um ator de nome neutro (Naomi Nero, cuja irmã é uma mulher trans) interpreta o protagonista em transição; Matheus Nachergaele dá vida a um pai preso aos ideais de masculinidade e Daniela Nefussi encarna tanto a mãe postiça quanto a verdadeira. Não é tão forte quanto o filme anterior, mas eu gostei.


As praias de Agnès (Las Plages D'Agnès, França, 2008)
⭐⭐⭐⭐

Em seu documentário autobiográfico, a cineasta belga Agnès Varda parte do seguinte ponto: se você pudesse olhar o interior das pessoas, encontraria várias paisagens. Nela, há várias praias. E aí ela vai revisitando as praias da sua vida, usando o cenário como ponto de intersecção da sua vida e da sua obra, mas nunca de forma banal: longe de ser um documentário convencional, o filme é mais uma peça cinematográfica sensível da diretora, recheado de metalinguagem, reinterpretações, poesia e humor. Uma homenagem ao cinema feita por alguém que dedicou sua vida a ele.

 
Bom Trabalho (Beau Travail, França, 1999)
⭐⭐⭐⭐
 
‘Bom trabalho’, da cineasta francesa Claire Denis, foi livremente inspirado em Billy Budd, de Herman Melville, e não conta necessariamente uma história, mas mostra as memórias do sargento Galoup enquanto servia à Legião Estrangeira em Dijibouti, na África. Pode-se dizer que o filme trata das relações de ciúmes, inveja e poder entre homens, com um forte subtexto homoerótico, embora muito pouca ação ou diálogo aconteçam.

Além da belíssima fotografia, o que me chamou a atenção foi a forma delicada como a diretora mostra o universo masculino, passando bem longe dos clichês geralmente vistos em obras sobre o assunto. Denis não se furta de mostrar um desfile de belos corpos masculinos, mas sem nenhum traço de fetichismo: o movimento captado por ela se assemelha mais à dança, ainda que sempre de maneira natural, e poucas vezes vi a imagem masculina ser mostrada de forma tão sensual, sem agressividade, como aqui. O filme em si é bem diferente da maioria das coisas que eu já vi, mas não achei que chega a ser a obra-prima considerada pela crítica.

Momento Lifetime: A dor do outro


O texto da semana no Momento Lifetime é sobre o Movimento Setembro Amarelo e o lidar com o suicídio e o sofrimento alheio.

É só clicar aqui para ler lá.



Alucinadamente Feliz, Jenny Lawson



Jenny Lawson é uma jornalista americana que ficou conhecida por seus posts honestos e cheios de humor negro em seu blog The Bloggess, onde ela conta sobre sua rotina enquanto pessoa que convive com transtornos psiquiátricos. Seu blog é premiado e seu primeiro livro, Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu se tornou um best-seller, e acabou sendo escolhido como melhor livro de 2012 pelo Goodreads Choice Awards. Em abril deste ano, a editora Intrínseca publicou este Alucinadamente Feliz, segundo livro da autor, cuja orelha diz se tratar de "um livro ridiculamente hilário sobre depressão e ansiedade". A proposta aparentemente seria esta: após se ver entrando em uma crise de depressão numa semana cheia de notícias ruins, Lawson decide que dessa vez ela vai lutar contra as emoções negativas sendo "alucinadamente feliz". Sim, é verdade que em alguns textos, principalmente no início, a autora se esforça para manter o foco em compartilhar experiências em que ela decide enfrentar a vida, obrigatoriamente de forma positiva, a se deixar abater pelas crises de ansiedade ou depressão. E também é inegável que ela é divertida e sabe transformar qualquer situação - da observação de cisnes em um lago a uma reunião com o contador - em episódios cômicos, mas em muitos outros ela simplesmente abandona o tema do livro para contar alguma história engraçadinha sobre sua vida (ou contar alguma história em que ela agiu de forma particularmente engraçada), inflando o livro com textos que funcionam como fillers, as encheções de linguiça. Então, se o leitor procura o livro com a intenção de saber mais sobre viver com transtornos mentais, lidar com as crises e tudo mais, pode ficar um pouco decepcionado; já a pessoa que estiver a fim de ler histórias engraçadas protagonizadas por uma mulher totalmente à vontade com sua excentricidade, vai estar no lugar certo.

E apesar de eu ter me identificado e me divertido com muitas das histórias - a da viagem patrocinada à Austrália, por exemplo, é particularmente divertida, embora nada tenha a ver com a proposta inicial do título -, senti um ligeiro incômodo com a forma como Lawson se esforça para ser engraçada todo o tempo, de forma a fazer parecer que ter transtornos psiquiátricos é sinônimo de ser meio tapada ou sem noção. Dá pra perceber que é um recurso cômico, com intenção de fazer humor autodepreciativo, mas só parece meio bobo ou infantil. A imaturidade inclusive é corroborada pela própria autora logo no início do capítulo "Aqueles biscoitos não sabem nada sobre o meu trabalho", que ela começa com "-- MAS EU NÃO QUERO SER ADULTA -- gritei, numa posição vagamente fetal, no canto do escritório. -- AINDA NÃO ESTOU PRONTA PARA ISSO". Pode ser engraçadinho para leitores mais jovens, mas para adultos da mesma geração de Lawson soa apenas constrangedor.

A dinâmica com a qual ela descreve seu casamento também reforça diversos estereótipos, dos menos lisonjeiros. Victor, seu marido, é representado de forma constantemente condescendente, como se fosse responsável por uma criança travessa, enquanto ela se esforça para se comportar mesmo como tal. Dá para resumir a interação entre os dois como ela falando ou fazendo coisas inapropriadas e o marido suspirando, como um casal formado por uma pessoa centrada e uma lunática. O que não apenas estereotipa as pessoas que, como ela, convivem com transtornos mentais, como também reforça a imagem que o senso comum faz das mulheres como loucas, incapazes ou meio burrinhas, sempre precisando de tutela. Um exemplo:

Meu trabalho era ganhar dinheiro sem querer enquanto o trabalho dele era se certificar de que eu não perdesse o dinheiro quando fosse plantar bananeira no estacionamento depois de os bares terem fechado.

A introdução do capítulo "Louca como uma raposa ao contrário" ilustra ainda melhor (grifos meus):

Victor me acusou de ser insana, porém na verdade eu sou louca como uma raposa. Mas uma raposa louca. Não uma raposa normal que age de forma maluca, só que não é mesmo maluca. (...) As pessoas acham que sou louca e depois descobrem que é tudo um esquema e que sou superinteligente. Então, elas passam mais algum tempo comigo e descobrem que na verdade sou só louca mesmo, porém tenho muita sorte, porque mesmo assim tudo dá certo.

Além de não fazer muito sentido, é um desserviço, já que dá a entender que as pessoas loucas (me aproprio do termo para ressignificá-lo de forma positiva, de acordo com a proposta da autora, embora ele esteja incorreto) fossem burras ou incapazes, um senso comum que todo o debate em torno da saúde mental procura derrubar. Inclusive é bom pontuar que muitas pessoas com transtornos mentais sérios como os de espectro autista, por exemplo, são especialmente inteligentes. Inteligência e capacidade para ter autonomia não caminham junto, necessariamente, do comportamento sociável, então este é o tipo de piada que, em um livro cuja proposta é tratar as doenças mentais de forma positiva, soa completamente inadequada. Mesmo que ela se refira a si própria e se aproprie de um termo pejorativo para um motivo de orgulho, o faz de uma forma que não rompe com o senso comum. Pior, pois o reforça.

E já que estamos falando de estereótipos, vale apontar mais unzinho que passa meio despercebido, mas que contém todo um discurso esquisito. No mesmo capítulo mencionado acima, ela faz a seguinte observação: "Alguns homens são como vulcões adormecidos, sempre prontos para explodir de raiva. E também para ejacular por todos os lados sem aviso. (...) Homens aparentemente calmos ficam furiosos com mais facilidade". O que ela quer justificar aqui, eu não sei.

Mas o livro tem seus momentos, e a própria Jenny Lawson demonstra que não se deve levar essas piadas muito a sério quando resolve escrever com seriedade. Há capítulos sobre automutilação e crises paralisantes de ansiedade, embora sejam muito breves e ela procure não destrinchar muito esses assuntos. O capítulo em Victor conduz uma entrevista coma  esposa é bem rico, e onde ela melhor aborda a luta diária que é conviver com a depressão. Ali, ela trata diretamente e se didatismos sobre o que é a depressão, dá conselhos honestos para quem precisa de ajuda, esclarece o que não ajuda uma pessoa deprimida e como lidar com pessoas que não entendem a doença. E a inclusão deste apêndice, que na verdade aparece no meio do livro, é um grande acerto, já que funciona como um propagador de informações de forma acessível ao amplo público que deve atingir.

Eu posso dizer que 'Anime-se' é quase universalmente visto como o tratamento mais inútil para a depressão. (...) Algumas pessoas não entendem que, para muitos de nós, o transtorno mental é um sério desequilíbrio químico, e não só uma 'melancolia de segunda-feira'. Essas mesmas pessoas bem-intencionadas me dizem que estou impedindo a mim mesma de me recuperar porque 'só preciso me animar e sorrir'. É nesse momento que considero a possibilidade de decepar os braços delas e em seguida culpá-las por não conseguirem pegar seus braços decepados e os levarem para serem reimplantados.

Muitos pensam que são um fracasso quando a primeira ou segunda ou oitava solução para depressão ou ansiedade não funciona como queriam. No entanto, uma doença é uma doença. Não é sua culpa se o medicamento ou a terapia que indicaram para tratar seu transtorno mental não funciona perfeitamente ou se funcionou por um tempo, mas depois parou de funcionar. Você não é um problema de matemática. Você é uma pessoa. O que dá certo para você nem sempre vai funcionar para mim (e vice-versa), porém acredito que existe um tratamento para cada um que se der o tempo e a paciência necessários para encontrá-los.
Jenny Lawson, apesar e tudo, é honesta - por mais desgastado que esteja esse adjetivo. Ela não se envergonha e nem tenta esconder sua inadequação; em vez disso, assume sua condição e transforma isso em uma bem-sucedida carreira. O tanto de esforço que investe em querer ser engraçada me faz desconfiar de que ela não sinta tanta segurança assim em tratar de assuntos obscuros com mais profundidade, talvez temendo uma rejeição dos seus leitores ou talvez por alguma insegurança. Quando a mistura de assunto sério + humor funciona, ela brilha. Quando não, soa apenas como uma comediante de imaginação fértil e um tanto infantil tentando passar mensagens motivacionais. Uma pessoa "alérgica a fazer sentido", nas palavras atribuídas a seu marido. Mas Alucinadamente Feliz pelo menos funciona no quesito "tá tudo bem, tamo junto" e, pra muita gente, isso já é o suficiente.

Leia também:
Jenny Lawson: Desistir poderia ser mais fácil, mas não seria melhor


Alucinadamente Feliz
Jenny Lawson
Tradução de Andrea Gottlieb de Castro Neves
352 páginas
Editora: Intrínseca

Momento Lifetime: Perpetuando o amor através de filhos (apenas não)


Era um comentário em um post de uma amiga, virou textinho e foi publicado no Momento Lifetime: na coluna da semana, dei um pitaco sobre como acho nocivo o discurso, aparentemente inofensivo, de enxergar os filhos (mesmo que hipotéticos) como perpetuação de um amor ou, pior ainda, memória afetiva de um relacionamento que não durou. O mote foi uma frase de Gregório Duvivier em sua coluna para a Folha.

Algumas pessoas argumentaram que apontar isso seria um exagero, porque "é óbvio que é só uma ideia hipotética, breguinha e romântica e que muitas vezes nem se concretiza". É verdade, mas muitas meninas de fato engravidam acreditando nisso. E, muitas vezes, estimuladas por seus companheiros. De onde eu venho, não foram poucos os casos de amigos e amigas terem se tornados pais e mães adolescentes com ideias românticos desse tipo - e terem tornado as próprias vidas e de (ex)companheiros e companheiras muito mais difícil.

Então sim, essa noção de que é um exagero apontar para a irresponsabilidade desse discurso é tão tóxica e errada quanto o discurso em si. Da mesma maneira que o ideal do amor romântico é, muitas vezes, tóxico para as relações afetivas também. Uma blogueira feminista tentou explicar para a gente de uma forma bem condescendente e prepotente que era óbvio que ninguém que faz um discurso sobre "como teria sido bom ter tido um filho com você" pensando nas fraldas, nos cuidados, na rotina hard core. E é justamente por isso que a maternidade e a paternidade irresponsáveis geram mulheres sobrecarregadas, muitas vezes abandonadas, pais ausentes e crianças ansiosas e confusas. É assim para todo mundo? Claro que não. Mas seria interessante se antes de romantizar a ideia de colocar uma pessoa no mundo, a gente levasse em consideração o que isso significa de verdade.

Admito que o texto não é aprofundado (mais uma vez, surgiu de um comentário que eu estava fazendo no Facebook), mas explico melhor meu ponto de vista lá. É só clicar aqui para ler.


Jenny Lawson: 'Desistir poderia ser mais fácil, mas não seria melhor' #SetembroAmarelo


Este mês foi lançada a campanha Setembro Amarelo, cujo objetivo é quebrar o tabu a respeito do suicídio, falando sobre ele aberta e francamente e estimulando pessoas com pensamentos suicidas a procurar ajuda. Vale a pena conhecer a iniciativa no site e na página do Facebook.

Aproveitando o ensejo, compartilho aqui dois trechos escrito pela autora Jenny Lawson em seu livro Alucinadamente Feliz, traduzido por Andrea Gottlieb Castro Neves e lançado pela editora Intrínseca. Dei a minha impressão sobre o livro aqui, que ganhará resenha completa no blog.

***

“Na escuridão, você encontra a si próprio, passa a ser apenas ossos e exaustão e fragilidade. Na escuridão, você encontra o seu eu mais primário. Na escuridão, você encontra o fundo das trincheiras lamacentas das quais o resto do mundo só enxerga a superfície. Você verá coisas que nenhuma pessoa normal jamais verá. Coisas terríveis. Coisas misteriosas. Coisas que tentam se infiltrar no seu cérebro como uma semente de erva daninha. Que sussurram segredos macabros e horrendos que você gostaria de esquecer. Que gritam mentiras. Que querem que você morra. Que não vão poupar esforços para arrastá-lo mais e mais para o fundo e matá-lo da maneira mais terrível de todas...pelas suas próprias mãos trêmulas. (...) Você sabe que esses seres não são reais, mas, quando se está no buraco negro e lamacento com eles, são as coisas mais reais que existem. E eles nos querem mortos.

E, às vezes, eles conseguem.

Mas nem sempre. E não com você. (...) Você está assustado, cansado, até mesmo exausto, e talvez tenha chegado perto de desistir. No entanto, não desistiu. (...) Suas cicatrizes são como uma pele invisível,e  cada vez você aprende um pouco mais. Você aprende a lutar. Descobre quais armas funcionam. Aprende quem são seus aliados.

(...) Às vezes, você luta valorosamente com os punhos e com palavras furiosas. Em outras ocasiões, luta enroscando-se até virar uma bola minúscula, evitando os monstros e o resto do mundo. E, às vezes, luta desistindo e pedindo a ajuda de outra pessoa que pode lutar por você.”


“Tenho uma pasta com uma etiqueta onde está escrito: ‘A Pasta dos 24′. Dentro dela há cartas de 24 pessoas que estavam no processo de planejar seu suicídio, mas que pararam e procuraram ajuda -- não por causa do que escrevi no meu blog, e sim por causa da incrível reação da comunidade de leitores que leram e disseram ‘Eu também’. Elas foram salvas por aqueles que escreveram sobre ter perdido a mãe ou o pai ou o filho para o suicídio, e sobre como fariam qualquer coisa para voltar no tempo e convencê-los a não acreditarem nas mentiras que os transtornos mentais contam. Foram salvas por aqueles que ofereceram encorajamento, canções, letras, poemas, talismãs e mantras que já haviam funcionado com eles e que talvez funcionassem para um estranho em necessidade. Há 24 pessoas vivas hoje que ainda estão aqui porque outras pessoas tiveram coragem de falar sobre suas lutas ou compaixão suficiente para convencê-las do seu valor, ou simplesmente disseram: ‘Não entendo a sua doença, mas sei que o mundo é melhor com você aqui.’

Toda vez que eu me perguntava como qualquer um deles poderia algum dia ter pensado que a vida seria melhor sem eles, me lembrava de que essa é a mesma coisa contra a qual luto quando meu cérebro tenta me matar. Assim, eles me salvaram também. É por isso que continuo falando sobre transtornos mentais, mesmo que isso possa afastar certas pessoas ou signifique que algumas delas vão me julgar. Tento ser honesta a respeito da vergonha que sinto, pois com a honestidade vem o empoderamento. E também a compreensão. Sei que se subir num palco e tiver um ataque de pânico posso me esconder atrás do pódio por um minuto sem ninguém me julgar. Eles já sabem que sou louca. E continuam me amando apesar disso. (...) Porque há algo de maravilhoso em aceitarmos os defeitos de alguém, especialmente quando isso nos dá a chance de aceitar nossos próprios defeitos e ver que são eles que nos tornam humanos.

Tenho receio de que outras crianças zombem da minha filha quando tiverem idade suficiente para ler e conhecer a minha história. Às vezes me pergunto se a melhor coisa a fazer não seria simplesmente ficar quieta e parar de acenar a bandeira de ‘fodida da cabeça com muito orgulho’, porém não acho que eu vá largar essa bandeira até que outra pessoa a arranque de mim.

Porque desistir poderia ser mais fácil, mas não seria melhor.”

***

Acompanho o post com uma musiquinha do Radiohead:

Vá com calma. Há uma saída.




As aves nunca morrem entre as nuvens, Rodrigo Menezes


Não me sinto à vontade para fazer resenhas de obras de amigos, em geral. Prefiro conversar com eles e publicar entrevistas, para que eles mesmo digam sobre seus trabalhos o que gostariam de dizer. Não significa que nunca tenha feito, mas sempre acredito que minha opinião pode ser parcial, principalmente se eu souber em que contexto seus trabalhos foram feitos. Isso não significa que eu não saiba separar as coisas: quando me mandam em primeira mão, eu faço comentários sinceros sobre o que gostei ou não, o que acho que funcionou ou não, e não me sinto na obrigação de inflar algo de que eu não tenha gostado muito. Da mesma maneira que eles também não sentem a menor obrigação de ler ou compartilhar meus textos. Não somos assessores uns dos outros.

Digo isso porque meu amigo Rodrigo Menezes lançou mais um livro esses dias, o que foi uma surpresa até para mim. Muito recluso, ele não costuma divulgar seu trabalho, nem inundar as redes com o que produz. Eu não fazia ideia de que ele estava escrevendo um livro, embora tenha visto uns dois poemas desta seleção em seu blog. Ele me mandou sem dizer nada, eu li e fui logo dizer a ele que deveria procurar uma editora: havia escrito o seu melhor livro até então. Não significa que seja um livro inteiramente perfeito; algumas arestas podem ser aparadas aqui e ali e eu creio que olhares mais profissionais podem ajudá-lo nisso. De qualquer forma, fiquei bastante impressionada com a contundência dos poemas - diretos, algumas vezes crus, algumas vezes sarcásticos, mas dotados de grande sensibilidade e escritos sob um olhar astuto e atento.

Divido em O vôo e O tiro, o livro traz poemas sobre ingenuidade, ilusões, ausência e embotamento, evitando escorregar na autopiedade e no melodrama. Há ainda espaço para temas como o lado obscuro das cidades e questões existenciais, com direito a uma provocação 'Anti-Butler'. Um livro cujo tom é o da transição, como alguém que procura aceitar o encerramento de um ciclo, sem saber muito bem o que está por vir.
 
Abaixo, um dos poemas desta nova leva, que escolhi por identificação:


Do prefácio:

A compilação de poemas reunida nas páginas seguintes marca o término de um ciclo pessoal na vida e na escrita. Como quase tudo no plano da realidade cotidiana, este livro tomou uma forma totalmente diferente da que havia inicialmente planejado, seguindo contornos inesperados e, ao mesmo tempo, familiares. O bloco de versos que apresento aqui, desta vez, exibe em seu interior duas linhas distintas perfeitamente perpendiculares, conotativas de uma brusca ruptura temática, metafórica e ao mesmo tempo real, que o acomete.
 
As aves nunca morrem entre as nuvens, assim como todo o restante do trabalho de Rodrigo, está disponível para download em seu blog Catarse Terapêutica (clique aqui).
 
 As aves nunca morrem entre as nuvens
Rodrigo Menezes
55 páginas
Independente
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mais sobre Rodrigo Menezes no blog:

Entrevista: "Ser poeta independente é um workshop de autoestima" (aqui)
Lançamento: Catarses e Levezas (aqui )
Prefácio de Caosmo, por Renata Arruda (aqui)
"Rosas colhidas, dores sentidas e lições aprendidas", por Rodrigo Menezes (aqui)

 

52 FILMES DIRIGIDOS POR MULHERES: MÊS #4




Depois de um hiato de dois meses, volto ao projeto com os filmes escolhidos em agosto.

Continuo postando as dicas no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen e também no Tumblr.


Eu sou Ali (I am Ali, EUA, 2014)
⭐⭐⭐ 

Documentário a respeito da vida do grande pugilista Muhammad Ali, falecido em junho. Ali ficou famoso não apenas por ser um dos mais rápidos boxeadores como por seu envolvimento em questões humanitárias, arriscando sua carreira ao se recusar a ir para a guerra do Vietnã e questionando o lugar do negro na sociedade americana, se aliando aos movimentos de luta pelos direitos civis. Dirigido e roteirizado por Clare Lewins, o documentário foi gravado enquanto Ali já definhava pelo Mal de Parkinson que o mataria, e traz diversas gravações de Ali em áudio e vídeo, além de entrevistas com sua família, amigos e colegas de trabalho. É um filme muito caprichado, bem escrito, bem montado, mas funciona mais como uma homenagem, evitando se aprofundar em temas muito delicados. Alguns dos erros e defeitos de Ali estão lá, mas a diretora evita temas muito dramáticos da biografia dele. Mesmo assim, vale o registro.


Trabalhar Cansa (Idem, Brasil, 2011)
⭐⭐⭐ 

Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o filme é um suspense psicológico que transforma em filme de terror os problemas da classe média convencional, como o desemprego, o sonho do empreendedorismo, o tédio. A protagonista, que a princípio parece uma doce e determinada dona de casa, logo se torna uma insuportável tirana, a medida que as coisas não saem exatamente como ela deseja. Interpretei como uma. grande paródia de filmes de terror, uma metáfora buscando escancarar (literalmente) os esqueletos escondidos e as máscaras sociais. É uma boa novidade no cinema brasileiro, mas mediano em geral.


Meu rei (Mon roi, França, 2015)
⭐⭐⭐⭐⭐

Meu Rei é um drama francês que retrata um relacionamento abusivo de forma muito sensível e inteligente.

À primeira vista, o cartaz pode passar a ideia de um filme romântico. Mas basta olhar com atenção para perceber que enquanto ela parece estar totalmente entregue, por baixo, quase sem que possamos ver seu rosto e reconhecê-la, ele domina o quadro com uma expressão que se assemelha mais a uma mordida que um beijo. A inteligência do filme é esta: diferente do que pensa o senso comum, nem todo relacionamento abusivo consiste em surras, ameaças, controle, desprezo e ódio. É justamente o carisma, o cuidado e o amor que o parceiro demonstra ter que faz com que muitas pessoas se envolvam em uma relação tóxica de dependência emocional sem perceberem o quanto estão sendo manipuladas.

A diretora Maïwenn acompanha o casal por um período de dez anos, mostrando tudo passo a passo: o momento em que eles se conhecem e ele parece ser um homem maravilhoso, divertido, bem-sucedido, carismático. Em pouquíssimo tempo, já está declarando seu amor e falando em casamento. A ex é retratada como uma desequilibrada que não aceita o fim da relação; apesar disso, ele permanece amigo dela, quase um tutor. Muito divertido, ele faz “brincadeiras” de tar tapinhas nela em público, mas ela não se importa. Eles se casam. Ela quer ter um filho. Primeiro sinal de alerta: a ex tenta cometer suicídio. A partir daí, a relação começa a entrar num espiral descendente, permeado por mentiras, abandono e abuso psicológico.

Uma cena em particular me chamou atenção: quando já refeita, ele comenta que ela está diferente, e ela responde de maneira tranquila “eu voltei a ser eu mesma”. Me identifiquei principalmente por ser uma frase que eu mesma venho dizendo, depois de passar alguns anos me recompondo também de um relacionamento emocionalmente abusivo. Vi algumas críticas que diziam que o relacionamento era tóxico porque ambos faziam mal um ao outro. Não é verdade. Eles se amam, sim, mas ele destrói a estabilidade emocional dela, que passa a tentar reagir, desesperada para também ser um sujeito na relação. Merece ser conferido.


Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Idem, Bélgica/França, 1976)
⭐⭐⭐⭐⭐

Jeanne Dielman é um clássico, considerado uma obra-prima feminista, mas certamente não é para todos os gostos: com um pouco mais de três horas de duração, quase nada acontece na tela. Não há ação, não há luta, não há dramas e nem alegrias. Os diálogos são pouquíssimos. O filme é todo feito de silêncios, e sua força é sustentada pela atuação contida de Delphine Seyrig.

O longa acompanha, do início ao fim, três dias na vida de Jeanne - desde que acorda até a hora em que vai dormir. Não sabemos quem de fato é essa mulher, o que pensa, quais são seus desejos, seus medos, seus sonhos, sua personalidade. Tudo o que sabemos é que ela é uma dona de casa exemplar e uma viúva que recebe clientes em segredo diariamente para manter a si mesma e a seu filho. Metódica, Jeanne cumpre sua rotina como se fosse um ritual, sem demonstrar nenhum tipo de emoção ou reação em seus dias sempre (aparentemente) iguais.

A diretora Chantal Akerman estabelece uma atmosfera claustrofóbica, em que o espectador é levado a ir se sentindo cada vez mais incomodado e sufocado com tanto vazio e banalidade. E é justamente este que parece ser o ponto: mostrar como são vazias, banais e solitárias as vidas das donas de casa, geralmente invisíveis, mostrar como pode se virar pra sobreviver uma mãe sem emprego ou marido. Mas há uma reviravolta. Se no primeiro dia tudo sai perfeito, no segundo, eventualidades começam a atrapalhar o ritual diário da dona de casa e isso não muda no terceiro, de forma que começa a ser possível captar a crescente, mas crescente, frustração da mulher: é possível perceber que alguma coisa está para acontecer, mas não dá para prever o quê. Apesar de muito longo e maçante, não me senti entediada e assisti com interesse do início ao fim.

Pra quem gosta/está habituado/tem interesse em cinema de imersão, recomendo demais. E destaque para esse design de produção lindo.