[Momento Lifetime] A dor e a delícia de viajar


Um texto sobre viagens e perrengues - e como pode ser complicado para uma mulher se aventurar a viajar sozinha por aí. Clica aqui e leia lá no Momento Lifetime.

Obs: Esse texto utiliza trechos da minha resenha para Hoje é o último dia do resto de nossas vidas, graphic novel da quadrinista austríaca Ulli Lust.

Um agradecimento especial aos meus amigos que compartilharam e cederam suas histórias. 




Por que o Radiohead importa tanto?


Para a revista O Grito!

O texto abaixo é uma tradução autorizada do artigo de Pasquale D'Alessio* em seu site The Sound Principles. Reconheço tanto as características de carta de amor quanto as de "princípios musicais para iniciantes" da publicação, e ele foi escolhido por manter o seu foco na importância de se tratar a música em geral com menos relativismo e por chamar a atenção sobre a importância de também se abordar aspectos técnicos, ainda que de forma rudimentar, em artigos simples e acessíveis.
Antes de irmos a ele, quero ajudar a responder a pergunta do título com duas indicações de artigo. A primeira, uma resenha da Atlantic sobre o show no Madison Square Garden, o primeiro nos Estados Unidos depois de quatro anos. Intitulado como O pânico glorioso de um show do Radiohead em 2016, o texto de Spencer Kornharber chama a atenção para o fato de que "durante as duas horas e quinze minutos em que estiveram no palco" ele não deixou de pensar "na violência, morte e fim do mundo, o que significa que foi um show muito bom do Radiohead".

Já se tornou consenso há bastante tempo que Burn The Witch é sobre a paranoia levando a civilização à selvageria, mas a mensagem parece particularmente urgente com estes arranjos [de furioso rock, sem a orquestra] e, talvez, neste contexto. Depois do ataque no Bataclan, depois de Orlando, depois de Nice, ir a qualquer evento lotado significa saber exatamente o que significa, nas palavras de Yorke "um ataque de pânico". Significa se dar conta de que quando ele canta 'abandone toda a razão / evite contato visual / não reaja / atire no mensageiro', ele está dando voz a um primitivo e perigoso impulso que está em questão nessas eleições, um impulso que vem fascinando o Radiohead há décadas.
 
A segunda indicação é um artigo de James Kidd no The National sobre o encorajamento que a banda vem fazendo para que os fãs transmitam seus shows através do Periscope - inclusive oferecendo wi-fi liberado, como no caso do show feito na Islândia. No texto, ele entrevista alguns especialistas sobre os aspectos legais deste tipo de transmissão, e os possíveis prós e contras para bandas, fãs e companhias. A pensata sobre a relação entre o Radiohead e seus fãs através da tecnologia também é boa:

Eles podem ter escrito álbuns inteiros (OK Computer) interrogando os efeitos desumanos da tecnologia, mas a banda rapidamente identificou a significância, possibilidades e desafios postos pela internet, acima de tudo pela maneira de mediar a relação deles com sua base de fãs. Eles fizeram blogs sobre a sessão de gravação da sua obra-prima lançada em 2000, Kid A, que depois se tornou o primeiro grande álbum na história a ser disponibilizado grátis para streaming. [...] Graças ao acesso proporcionado por plataformas como o Periscope, um público agora pode ser simultaneamente excluído e incluído ao mesmo tempo, ausente e ainda assim, presente. Os fãs de Radiohead em Abu Dhabi podem testemunhar o momento exato em que eles apresentaram Burn The Witch pela primeira vez na Holanda, quando tocaram a nova versão de True Love Waits no piano ou quando tocaram Creep pela primeira vez desde 2009. Essa estranha colisão entre a proximidade e a distância levanta mais perguntas. Exclusividade e até privacidade ainda são possíveis com sites como o Periscope? O streaming ao vivo dilui o status de privilégio do público real que acredita estar participando de um evento único?



Agora vamos à questão proposta por Pasquale D'Alessio: Por que Radiohead importa tanto?

Provavelmente todos vocês conhecem o Radiohead. Os profetas do fim do mundo. A banda que escreveu "Creep". Os gênios do eletro-beat-rock-alternativo enlouquecido, ou qualquer que seja o gênero que demos a eles.

Não importa o que você pensa sobre eles, ninguém pode negar que eles têm uma carreira única em quase todos os sentidos. Mas a verdadeira razão pela qual o Radiohead importa, além das suas ideias inovadoras de mercado, ou sua constante reinvenção dos ideias estéticos e de mercado, é pelo o que há em sua música.

Sim, Noel Gallagher, o hype é justificado. Não basta dizer que eles são bem-sucedidos por serem únicos. Há toneladas de bandas que são únicas, mas nenhuma conseguiu atingir totalmente as conquistas de Radiohead. Por que? Porque isso diz respeito à música em si mesma.
E eu faço questão de grifar isso porque a música é um desses assuntos que infelizmente sofre dos terríveis efeitos do relativismo. Em outras palavras, sofre da noção ou da ideia de que tudo é relativo. De que o que significa uma canção do Radiohead e o significa uma canção de Justin Bieber depende da subjetividade do ouvinte. E isso não é verdade. A música existe do lado de fora do ouvinte - quando eu ouço a Nona Sinfonia de Beethoven, eu sei que se trata de uma obra-prima. Mesmo que todas as pessoas no mundo odiassem, continuaria sendo uma obra-prima. Mas as pessoas não odeiam. Por ser uma obra-prima.

O mesmo pode ser dito, em vários níveis, sobre cada álbum do Radiohead, especialmente sobre tudo a partir do Ok Computer até A Moon Shaped Pool, o mais recente e mais um tremendo feito deles. O motivo pelo qual a técnica musical e a estética do Radiohead são magistrais reside no fato de que eles entendem as sutilezas da escrita, do arranjo e da gravação, assim como a importância de se posicionar culturalmente. Eles acreditam em sua música e fazem declarações através dela.



Falando como um músico e compositor, eu gostaria de tentar quantificar isso mais especificamente, dentro dos parâmetros que um texto de blog permite.

Eu acredito que há três facetas principais que definem grandes compositores e letristas. Técnica, Fluência e Alma. Toda a minha filosofia é baseada nisso. Técnica, eu defino como a habilidade de executar de forma coerente uma ideia musical difícil, a saber: praticando escalas que te deixarão bom em solar. Fluência é a habilidade de transitar através de diferentes gêneros musicais, aprendendo as diferenças sutis no processo. Alma é a habilidade de estar em contato com aquela parte da música que está além do mundo material. É a conexão com uma inteligência de ordem mais elevada que permite a inspiração necessária para dar um sentido mais profundo à arte e à vida. E finalmente, a última peça seria ter uma mente aberta e vontade de arriscar. E o Radiohead não apenas preenche todos os critérios, mas os ultrapassa de várias maneiras.

Pense em quando eles resolveram deixar as guitarras de lado em Kid A, e mudar para uma direção completamente diferente. Em várias entrevistas nós vemos que essa mudança foi difícil para os membros da banda, mas essa luta interna foi quase necessária para que uma ideia nova emergisse. É desnecessário dizer que o Kid A foi um momento decisivo na carreira deles, e eu pessoalmente acho que nenhum deles teria feito nada diferente. Isso deu a eles uma aura e uma mística de que eram capazes de fazer mais do que se espera de uma banda. Mas não termina aí, a impressão que temos é a de que eles tratam quase todos os aspectos do seu processo criativo com o mesmo senso de escrutínio e intensidade. Os acordes mais básicos são quebrados, trocados, manipulados de forma a nos fazer pensar que são completamente diferentes. Mais impressionante ainda é ver como uma canção era antes de ser trabalhada. Lotus Flower, por exemplo, indo do violão de Thom Yorke à música dançante que conhecemos.

Em termos de fluência, em que outra banda nós ouvimos arranjos de cordas Bartókianos tão bem dominados como em Burn The Witch, que sem dúvida surgiu do amor intenso que o guitarrista Jonny Greenwood nutre por Messiaen, Penderecki e outros mestres do século 20. É claro que essa mesma banda também pode fazer nos dar o rock convencional de Bodysnatchers, My Iron Lung ou The Daily Mail, e ainda se aventurar pelo folk, o dance, o electro e o avant-garde.

Em termos de técnica, que outra banda usa moduladores comuns (o método usado para mudar as notas abruptamente) com tanta proficiência como Thom. Ele chama isso de seu "truque", ainda que eles não apenas mudem de notas, eles conseguem usar de uma forma heterodoxa, não vista comumente na música pop. Pegue Sail to the Moon, por exemplo: em apenas vinte segundos de música nós já oscilamos entre dois tons e uma cadência. A intro insiste que estamos em C maior e de repente os versos começam em A menor. As músicas da banda são incrivelmente organizadas em termos de harmonia e sintaxe, que são a base para explicar os motivos que as composições nos afetam da forma que afetam. Tensão e resolução, coisas as quais os compositores do século 19 dominavam tanto. Outra grande técnica que eu noto é como eles se distanciam da home key no post-chorus, apenas para retornar chegando à conclusão com a maior força. Eu sei, um monte de abobrinha...mas ouça o efeito que isso tem em Lotus Flower quando chegamos em ...slowly we unfurl as lotus flower e aí chegamos em ...listen to your heart. Dá vontade de morrer com tanta beleza. Sério.



É verdade que muitas canções fazem isso, mas nem sempre de maneira tão eficiente. Porque aqui nós temos a sensação das coisas convergindo: a letras, a voz na escala 3-2-1, o efeito vocal na produção e o retorno do riff. Música tem a ver com as relações internas das ideias e as relações com o ouvinte - Radiohead é capaz de transmitir ideias complexas ao público sem que seja um desafio ouvir o que há na essência.

Em termos de alma, a sensibilidade da banda é profunda. Assista a qualquer performance das sessões do From The Basement e veja como eles se entregam à música. Sendo eu mesmo um cantor, não consigo expressar quanto é importante se entregar à performance - se abandonar completamente à música que está diante de você, mesmo que você seja uma parte minúscula dela. Com o tipo de intensidade com a qual eles tocam, você sabe que estão conectados a algo que vai além deles.

Se eu tivesse que imaginá-los como escrevendo uma filosofia, provavelmente poderia resumir assim:
não só {insira aqui}
não só {essa progressão}
não só {4/4}
não só {um som de synth}
não só uma banda.

Então por que Radiohead importa tanto? Simples. Eles nos mostram o que significa ir além de apenas compor música. Eles nos mostram como ultrapassar os limites de uma estética intuída, como desenvolver técnicas e uma voz pessoal. Eles nos mostram que há mérito em tudo o que você ouve e que a música pode ser algo que vai além da música de fundo ou da dança. Claro, eles também fazem esse tipo de coisa, mas eles nos trapaceiam com aquele beat às vezes delinquente; com a melodia guiada pela alma, as progressões fáceis de notas, que nos levam a um mundo de melodias distorcidas, mudando constantemente de sintaxe e com uma dignidade musical descompromissada.
Eu sempre considerei os mestres dos séculos 18 e 19 como os grandes padrinhos da música, aqueles que nos levam o mais próximo de alcançar o éter musical infinito; mas eu posso dizer com segurança que entre algumas outras bandas do século 20, o Radiohead merece um lugarzinho ao lado dos compositores favoritos de Jonny, um lugarzinho nos anais da história e um capítulo, se não um volume, na Grande Tradição da Música.

Eles importam porque nos mostram que isso não é música.

*Pasquale D'Alessio é cantor de ópera, compositor, e pianista, além de fundador do site The Sound Principles e editor do Redux Media.



Turnê

O Radiohead está rodando o mundo em uma turnê que vai até outubro. Segundo Jonny Greenwood, 60 músicas foram ensaiadas para esta turnê - até o momento, 53 delas já foram tocadas. Abaixo você pode conferir uma playlist com o setlist.

Note que:

- A maioria dos shows começam com a mesma sequência de abertura de A Moon Shaped Pool, embora "Decks Dark" e "Desert Island Disk" tenham sido cortadas de alguns shows recentes;

- O setlist costuma ser composto de 24 músicas; na playlist abaixo as músicas listadas até "Creep" são as que aparecem com mais frequência nos shows;

- De "Climbing up the walls" até "True Love Waits", estão as músicas tocadas pouco mais de uma vez, e de "Glass Eyes" em diante, são aquelas que apareceram uma única vez até o momento. A playlist será constantemente atualizada até outubro.

Há uma grande expectativa para que o Radiohead faça shows no Brasil no ano que vem - espera-se que a banda apareça como headliner do Lollapalooza. Fica aqui a torcida!



Tatuagem: não é coisa de mulher? + Entrevista com tatuadoras

Essa foi uma das primeiras matérias que eu escrevi e, por algum motivo, não fui capaz de encontrá-la aqui no blog e nem mesmo no local onde originalmente foi publicada - no site da Universidade Livre Feminista. Por sorte, achei em um antigo blog que eu mantinha, e resolvi passar para cá, sem revisão nem nada, como forma de arquivá-la.

Portal Tattoo, 2009

Esta é uma das principais formas de expressão pessoal. Atualmente, mais do que a música, a variedade de estilos e as razões por trás delas podem dar uma visão geral do que está acontecendo na sociedade.” 

Até alguns anos atrás, pessoas tatuadas eram marginalizadas pela sociedade. Ainda existem empresas que se recusam a contratar pessoas tatuadas e profissões onde elas estão impedidas de aparecer. Resquícios de uma Idade Média onde a Igreja Católica baniu a prática, considerada demoníaca por “vandalizar o corpo”. Depois, os marinheiros ingleses passaram a difundir a prática pelo mundo, reproduzindo suas aventuras nas figuras de caveiras, monstros marítimos e embarcações. Por uma questão social, a tatuagem acabou se tornando popular entre os guetos, prostíbulos e outros lugares frequentados por bêbados, encrenqueiros, prostitutas e marginais. Em 1879, a Inglaterra passou a adotar a tatuagem como forma de identificação de criminosos. O preconceito ficou mais do que estabelecido, de maneira que não apenas a “escória” fosse vista como adepta do “vandalismo”, mas pessoas tatuadas também passaram a fazer parte das atrações de circo, chamadas de freak shows. 

“A popularidade da tatuagem durante a última parte do décimo nono século e na primeira metade do século XX, deveu-se muito ao circo. Quando o circo prosperou a tatuagem prosperou. Por mais de 70 anos todos os importantes circos empregavam muitas pessoas completamente tatuadas. Alguns foram expostos como atrções incidentais ao lado de outros performances tradicionais, como malabarismos e engolir espadas”

E neste meio, duas mulheres destacaram-se: Jean Furella e Betty Broadbent. Furella, anteriormente Mulher Barbada, resolveu raspar toda a barba e tatuar todo o corpo (para permanecer no circo) após se apaixonar por um homem que não a queria com pelos no rosto. Já Betty Broadbent, se apaixonou pelas tatuagens de Jack Red Cloud e chegou a ter mais de 350 desenhos pelo corpo. Estamos falando aqui de uma mulher que começou a se tatuar nos anos 30! No final dos anos 60, Betty resolveu se tornar tatuadora profissional. Justamente em uma época onde estava aceso o espírito de rebeldia e rock and roll, o que contribuiu bastante para a popularização da arte, principalmente nas décadas seguintes.

Estamos tão acostumados a ver pessoas com tatuagens no corpo, que nunca teríamos imaginado a realidade das pessoas tatuadas no começo da expansão pelo mundo desta, assim chamada hoje, arte.
Não demorou muito para chegar a vez das mulheres, as quais ao mostrar a pele nua e desenhada em uma época na qual era terrivelmente vista a nudez, convertia-se na melhor atração para os homens, os quais deixavam-se levar pelos seus mais baixos instintos com total consentimento da sociedade. Foi essa excitação dos vitorianos que encheu os cofres dos circos, e as mulheres tatuadas converteram-se nas melhor pagas estrelas do espetáculo.

Finalmente, no século XX, as tatuagens passaram a serem normais, conta o site Arte no Corpo
Talvez a “tara” dos vitorianos seja a explicação do por quê hoje, ao fazer uma rápida busca pela internet, você encontre mais sites ressaltando a sensualidade de uma mulher tatuada do que encontrando informações sobre as profissionais que atuam neste ramo, por exemplo. Tatuagem ainda é vista como uma profissão masculina, embora esta realidade já esteja mudando. Quando eu comecei a tatuar (em 1990), a tatuagem ainda estava saindo da adolescência, era uma arte não tão desenvolvida como hoje.

Não havia informação e haviam poucas mulheres no mercado. O preconceito contra tatuagem ainda era grande, pouquíssimas mulheres tinham tatuagem, era um cenário bem underground. Hoje a tatuagem está bem popularizada, o preconceito contra a tatuagem diminiu ao mesmo passo em que as pessoas se familiarizaram com o processo. E a imagem do profissional mudou também. Hoje tem gente que leva o filho para fazer curso de tattoo porque acha que é uma boa profissão a seguir. A minha mãe achava um absurdo
“, conta a tatuadora Mallu Santos, uma das pioneiras no Estado de São Paulo, que, em 2009 resolveu organizar o evento TattoGirls, sem fins lucrativos, com o objetivo de “mostrar todo o potencial do talento feminino como nas produções de art fusion (quando duas ou mais artistas trabalham numa mesmaobra).”


Sobre a motivação do evento, Mallu desabafa: “Nosso meio ainda é 80% masculino. Ainda temos muita gente que chega no estudio, nos olha e pergunta: o tatuador está? Ou quando sabe que eu sou tatuadora pergunta, seu marido tatua também, não é? Como se eu vivesse na sombra de um marido tatuador. Eu não sou feminista, mas a sociedade é muito machista. Nós precisamos mostrar com naturalidade que existem muitas meninas com trabalhos lindos e tornar a mulher tatuadora uma coisa bem popular”.

E não apenas isso. O evento também contou com a participação da ONG MulherViva “já que muitas tatuadoras sofrem violência. Estamos aqui para dar todo o suporte.”, declarou a coordenadora Naiá Duarte. Sobre a inclusão da ONG, Mallu conta que “no evento eu coloquei uma ong que defende mulheres vítimas de violência, porque elas são vidas solitárias. Eu tive uma grande amiga que morreu assassinada pelo ex-marido e isso marcou demais a minha vida. Se eu puder ajudar a alertar estas mulheres e com isso conseguir salvar ao menos uma, já é uma coisa maravilhosa. Quando uma mulher é vítima de violencia ela também acaba vítima de preconceito. As pessoa já começam a pensar que ela “fez algo para merecer a surra”. A sociedade é muito machista”.

Além disso houve também o espaço “Pinup Express”, onde as visitantes receberam produção de cabelo e maquiagem no estilo Pin Up, gratuitamente, além de“palestras e workshops sobre temas importantes como câncer de pele, doenças sexualmente transmissíveis, legislação, abordando as novas normas da Anvisa, além de técnicas de tatuagem e piercing.” Mas o evento não teve nada de segregador: houve participação de homens e inclusive um homenageado. 

Mallu declarou em entrevista que nos eventos de tatuagem, dificilmente se vê mulheres expondo e que elas ainda enfrentam muito preconceito:“Se existe preconceito com a tatuagem em geral, imagine com as mulheres: a mulher sempre paga mais caro, algumas clientes se sentem constrangidas ao tatuar com homens… Em coisas assim que temos que pensar. As pessoas agem como se fosse uma ‘coisa do além’ a mulher fazer uma tatuagem bem feita e isso só pode mesmo mudar a partir da desmistificação do nosso trabalho”.

As homenageadas do evento foram as primeiras tatuadoras das regiões mais importantes do Brasil,mulheres que tiveram uma posição de destaque num cenário quase totalmente masculino, há 20, 30 anos atrás”, diz Mallu.Uma delas, Hosani Finotelli chegou a declarar: “Há 30 anos se eu falasse para alguém que um dia teríamos uma convenção só de tatuadoras, os homens ririam da minha cara”. Outra homenageada, Cláudia Macá só conseguiu dizer: “Estou muito emocionada”. 

Sobre uma próxima edição do evento, Mallu chegou a afirmar que “a movimentação não vai parar por aqui” e já tem um projeto novo que visa englobar tatuagem e outras artes urbanas, como grafite, música e dança, com o foco sempre nas mulheres. A idéia é que o evento tenha 3 pontos chave: mostra das artes – um primeiro contato com artes urbanas. oficinas de arte – para quem já conhece e quer se aprofundar no assunto e intercambio cultural – para quem já vive de arte e quer estar em contínuo aprimoramento.” Porém, um evento desse porte exige bastante investimento financeiro e Mallu declara estar em busca de patrocínio para uma próxima edição.

E a luta das mulheres para vencerem o preconceito chegou a ser matéria do Correio da Bahia, com repercussão no site Direitos Humanos, do senador Cristovão Buarque. De acordo com o texto, de 2009, a presença de mulheres tatuadoras vem crescendo maciçamente em Salvador e há quem afirme que elas já somam 20%. Mesmo assim, encontramos declarações como as da tatuadora Cell que confirma uma certa má vontade dos rapazes com tatuadoras” e de Tati, que “não viu o preconceito masculino diminuir” e tem 80% da sua clientela um público de mulheres. “Deixam as coisas simples e pequenas para as mulheres e um trampo mais elaborado para os homens”, conta na matéria.

Mas existem também quem afirme que, mesmo com algum preconceito em um primeiro momento, as tatuadoras muitas vezes são preferidas exatamente por serem mulheres e supostamente terem a “mão leve”. Porém, de acordo com Mallu, o problema às vezes está nos colegas de trabalhoAcredito que não exista dificuldade em uma menina com um bom trabalho arrumar vaga na maioria dos estúdios, ao passo que alguns tatuadores se sentem constrangidos em trabalhar para uma mulher”. Constrangimento este que muitos homens, em diversas áreas ainda se permitem sentir.

Para tentar desmistificar também alguns mitos, perguntei a algumas mulheres se elas preferiam fazer tatuagem com outras mulheres. A maioria disse não se importar com o sexo do tatuador, embora algumas admitam que dependendo do local se sentiriam constrangidas. Apenas uma mulher afirmou que se entrasse em um estúdio, iria procurar automaticamente, pelo portfólio de um homem “porque no meu imaginário tem a imagem do tatuador”. O resultado demonstra que embora certos simbolismos ainda sejam fortes na cabeça der algumas pessoas, eles estão se desfazendo para uma maioria.

Para os homens, perguntei se existiria algum inconveniente em ser tatuado por uma mulher, ou se, ao adentrar um estúdio, iriam procurar pelo portfólio de um homem. A grande maioria disse não ver problema algum em mulheres tatuadoras e alguns, inclusive, informaram que já foram tatuados por alguma mulher. Somente três admitiram que ao entrar em um estúdio procurariam pelo portfólio de um homem, ou pensariam que a moça fosse recepcionista do local ou ainda, que talvez ela pudesse ser menos experiente, por ser do sexo feminino. Mas o que todos, homens e mulheres, afirmaram categoricamente é que o importante mesmo é a indicação de algum amigo, o portfólio e as condições de higiene do local.

Para entender de vez a questão, resolvi entrar em contato com algumas tatuadoras e saber as questões da profissão e do preconceito. Reuni nesta entrevista os pontos de vista das cariocas Danielle Perrone , vencedora de cinco prêmios “duas, como melhor tatuadora e outras três nas categorias, Old school, New school e melhor Série de Desenhos Coloridos”. Danielle se especializou em coberturas de cicatrizes e tatuagens mal feitas e, fato curioso, chegou a ter um estúdio, único no Rio de Janeiro, onde só trabalhavam mulheres. Está também Anna Idza, que, como Danielle, se tornou especialista em coberturas “pela demanda” e também abocanhou 5 prêmios “sendo 2 deles como 1º lugar Categoria Colorido, 1 de melhor tatuadora do evento e um como 2º lugar Categoria Colorido e um de 2º lugar Categoria Feminino”. Por fim, mas não menos importante, a tatuadora autônona Elisa Nobre. Todas com observações interessantes sobre o ofício e a arte de se dedicar à tatuagem.



Trajetória

Danielle: Sempre gostei de tatuagem, e desde os treze anos eu já sabia que era isso que eu queria, porém minha mãe tinha medo que eu me tatuasse demais até por conta da minha idade na época, então me proibiu de aprender a tatuar, e como toda mãe, tentou achar uma carreira para mim onde se adequasse ao meu dom para o desenho, e foi por isso que estudei publicidade. Depois disso como eu já era maior de idade eu resolvi que o melhor para mim seria fazer algo que realmente eu amasse. E hoje to aqui. Não participo de todos, nem de muitos eventos, competi em alguns e tive exito na maioria dos que participei, tenho 6 prêmios em categorias variadas e isso já me basta. Não me considero uma “caça prêmios” até por que ao contrario do que a maioria imagina, esses prêmios não trazem status nem retorno financeiro e sim uma falsa fama que se não for renovada, você é rapidamente apagado do meio.
Elisa: Sempre tive aptidão pra desenho, desde pequenas eu e minha irmã desenhamos o tempo todo. Há uns 7 anos atrás eu e um amigo fantasiávamos que abriríamos um estúdio juntos, eu fazendo piercings e ele tatuando. Um tempo depois ele me indicou pra um estúdio onde estavam à procura de uma menina pra ensinar a fazer piercing, assim entrei no mundo da body art, começando, mais ou menos um ano depois, a tatuar.
Ana: Sou tatuadora desde 2005, antes eu cantava e estudava músca, tinha banda, mas a musica atualmente esta vivendo uma fase critica, comecei a tatuar pq a arte sempre foi uma coisa natural pra mim, mas nunca imaginei que iria me apaixonar tanto por meu trabalho assim. Minha maior influencia é o pintor e amigo Celso Mathias do qual pude acrescentar muito ao meu trabalho.

É verdade que as mulheres são as que mais recorrem à remoção de tatuagens? Se sim, por que isso acontece?
Danielle:Acredito que essa minha especialização se deu pelo motivo de eu ter iniciado minhas atividades com tatuadora em um local bem humilde. Na epoca aparecia de tudo. Acho que quanto mais humildes são as pessoas, menos noção de arte elas tem e acabam se marcando, apenas para dizer que possui uma tatuagem. E foi assim que consegui adquirir experiência, aprendendo na prática, tive a oportunidade de fazer coberturas e reformas com até 98% de sucesso, esses 2% de insucesso fica a cargo de verdadeiros estragos na pele, que pessoas despreparadas tem a capacidade de fazer. Mas entre meus clientes o que eu posso dizer é que os que mais recorrem a remoção são os homens, remoção a laser, eles se desesperam mais que elas, passaram por péssimos tatuadores, insatisfeitos fizeram a remoção e depois me procuraram para refazer o trabalho para cobrir a cicatriz que o laser deixa. Já as mulheres recorrem diretamente ao tatuador, fazem mais coberturas, acredito que isso acontece pelo poder economico dos homens ser maior que o das mulheres em nossa sociedade.

E a clientela, é majoritariamente feminina?
Elisa: Atendo aproximadamente 65% de mulheres e 35% de homens.
Ana: A maioria feminina
Danielle: Sim!!! Mas não é pelo fato de eu ser mulher e sim pelo crescimento da mulher na sociedade, a mulher vem quebrando tabus e se tatuando muito mais que os homens, aos poucos o preconceito sobre a mulher tatuada está se diluindo e a tendência é perecer.

Como e por que surgiu a ideia de um estúdio onde só trabalham mulheres? Pode-se considerar um viés feminista nesta decisão?
Danielle:Não considero o feminismo, até por que já abri espaço para tatuadores fazerem trabalhos como convidados, tive o prazer de ver Diego Nunes tatuando na minha loja uma vez. Os homens não são abominados por mim, na verdade o que geralmente acontece é que eles mesmos se afastam, acho que pelo fato de ser uma mulher no comando. Acredito que o que nos diferenciava, era um ambiente mais leve, pois as meninas tendem a ser mais carinhosas. Mas ter um estudio só com tatuadoras tem seu lado ruim, nos bastidores acho que as mulheres são muito mais competitivas, o que as deixavam sem noção, chegava até haver discussões no momento de distribuir trabalhos, mas eu fazia de acordo com a experiência de cada uma, na minha consepção eu não podia dar um trabalho mais elaborado a uma pessoas com pouca experiência, por uma questão ética e então tudo terminava numa guerra de egos, particularmente não gosto desse tipo de postura e atualmente por isso que me desfiz da idéia e resolvi trabalhar sozinha outra vez. Não é uma decisão definitiva, mas no momento prefiro assim.

Sofre ou já sofreu preconceito por ser uma menina?
Danielle: De familiares nunca, de clientes algumas vezes, mas eu até admito a ignorância e de colegas de profissão recentemente, coisa que eu nunca imaginei acontecer por não ter havido caso em oito anos de profissão. Mas não vale a pena nem comentar. Mas de modo geral sempre fui muito respeitada pelos colegas, esse foi um fato isolado. Acho que ele se sentiu ameaçado no momento rs!!!
Elisa: Principalmente no começo, quando não tinha muito trabalho pra mostrar, era comum as pessoas indagarem: “Você é tatuadora?” Me incomodava, claro, mas hoje em dia me garanto com o meu trabalho e falo: “Antes de formar a sua opinião, veja o meu trabalho.” Até hoje trabalhei em uns 5 estúdios diferentes, claro que a maioria de tatuadores era masculina, muitos deles deram em cima de mim no começo mas logo se tornaram grandes amigos. Ainda assim, nunca me desrespeitaram com relação ao trabalho, apesar de ter amigas na profissão que sofreram um bocado.
Ana: Para ter algum respeito dentro do meio tive de mostrar meu potencial, enfrentei muitos problemas em estúdios que trabalhei, muitas desavenças e inveja sim, mas isso só me fez querer ser melhor ainda na minha arte. Você pode justificar suas falhas por conta de muitos fatos ocorridos, ou simplesmente pode reverter a situação a seu favor.

Existe um tipo de sexismo onde o tatuador é mais respeitado, visto como o mais apropriado para o trabalho e a mulher o instrumento, que usa a tatuagem como ornamentação para se embelezar, como se fosse um acessório ou maquiagem?
Danielle:Hoje acredito que não há isso. Pelo contrario recentemente tenho atendido uma quantidade maior de homens, que procuram qualidade no trabalho, ambiente limpo e agradável. Os homens reclamam muito dos tatuadores e suas mãos pesadas e falhas de atendimento, com a falta de tato de alguns em lidar com o publico, do ambiente do estúdio, de musica alta Heavy Metal estourando os tímpanos. Uma coisa é fato, os homens são muito mais exigentes que as mulheres e quando tomam conhecimento de tudo que uma boa TATUADORA pode oferecem ao executar seu trabalho, eles não abandonam nunca. Mulheres em sua maioria aplicam carinho materno em quase tudo que faz e os homens gostam disso.
Ana: Creio que isso deva acontecer porque as mulheres tatuadoras são ainda minoria, mas aos poucos vem mostrando tanto ou até mais potencial que os caras. A profissão de tatuador é algo que começou com muita discriminação e hostilidade pela sociedade, e por estar num patamar artístico cada vez mais elevado, a tattoo vem conquistando o espaço feminino e de todos os tipos de pessoas também.
Elisa: Acredito que na tatuagem, com em muitas profissões, as mulheres estão aos poucos, conquistando o seu espaço. A tatuagem no Brasil, num passado próximo, era relacionada à marginais, maus elementos e não vista como arte, mantendo o sexo feminino de uma certa forma afastado do meio. Uma mulher como artista pode ter tanta sensibilidade ou até mais do que qualquer homem artista. Essa sexualização das mulheres tatuadas, o fetiche, creio que se deva justamente pela autenticidade e atitude de uma mulher que suporta a dor, muitas vezes mais que os homens, em nome da arte.

Acredita que a tatuagem, para a clientela feminina, está mais ligada à moda ou à arte?
Danielle:Moda sem duvida!!! A maioria delas procuram tatuagem como adorno. É raro uma mulher ver valor artistico na escolha da tatuagem, elas se preocupam mais com significados e homenagens. Na contramão dos homens que procuram trabalhos mais elaborados, se preocupam em ter uma tatuagem exclusiva, com alta qualidade artistica.
Elisa: Como a maioria das mulheres gosta de tatuagens pequenas e delicadas, estão sempre fazendo uma nova que viram na novela, ou chegam perguntando ‘o que está saindo mais, trevo ou laço?’. Mas isso também vale para homens, com a diferença que a maioria acredita que ‘homem tem que ter tatuagem grande, se não pega mal’, mas se repete a cena de fazer a mesma tatuagem que um jogador de futebol ou ator da TV. Temos que encarar o fato de que pessoas sensíveis à arte não são a maioria em nosso país.
Ana: Depende, é como se vestir: existem pessoas que se importam muito com a moda e outras que simplesmente se vestem de acordo com seu gosto próprio. A tattoo não foge disso.

Por outro lado, ainda rola preconceito da sociedade com a menina tatuada, associando à marginalidade e afins?
Ana: Vejo isso hoje em dia mais em pessoas bem conservadoras e de mais idade, e mesmo assim bem menos..cada dia que passa a tattoo se mostra mais arte.
Elisa: Sim, bastante. Eu tenho muitas tatuagens grandes e visíveis. Muita gente torce o nariz quando passo, uns elogiam, todos olham. Se a menina não tiver a cabeça feita e mente aberta vai se meter em muita confusão. Já ouvi muita gente me dizer que tenho cara de ‘doidona’ mas quando estou trabalhando e demonstro meu profissionalismo, essa impressão logo passa.

As mulheres já conquistaram espaço no diz respeito a tatuagem?
Danielle: O que eu percebo em relação a isso é que ainda há muita batalha pela frente, as mulheres que se destacam no meio são poucas, pois a maioria que já tatuam não se preocupam muito em se qualificar. Nessa profissão o aprendizado é eterno e se o profissional não se doar totalmente à arte, não há evolução.
Elisa: Em nível mundial, diria que sim, temos muitas mulheres com trabalhos incríveis e reconhecidos no ramo, como a própria Kat Von D, Lola Garcia, Angelique Houtkamp, entre outras. O Brasil está se encaminhando, temos algumas mulheres com trabalhos fortíssimos, mas enquanto houver uma convenção de tatuagens só para mulheres, continuaremos a separar o sexofeminino do todo, mesmo que sutilmente.

O que tem mudado desde que você entrou na profissão até hoje?
Danielle:Apareceram mais meninas no mercado, há mais conscientização no que diz respeito a higiene e contenção de doenças transmitidas pelo sangue e contaminação cruzada. Muita coisa melhorou e muita coisa tem que melhorar. Seria ótimo se fossemos reconhecidos como profissão, nossa responsabilidade é muito maior do que se imagina, não temos compromisso com apenas com a estética, uma tatuagem trabalha totalmente a autoestima de quem a carrega e isso é muito gratificante. Acho que merecemos esse reconhecimento. Seria uma grande vitória.
Elisa:No Brasil o que mudou basicamente, no último ano, foi a atenção da Anvisa ter finalmente se voltado para os estúdios, fiscalizando os materiais e condições nas quais os tatuadores trabalham. Isso é muito favorável para nós pois, aos poucos, a clientela vai se conscientizando da necessidade real da biossegurança aplicada de forma correta, como uma proteção à sua própria saúde.
Ana: Vejo mais meninas trabalhando e colocando a cara numa competição como eu venho fazendo desde 2007. Aliás, o grande motivo que me fez fazer isso foi justamente o fato de não ver mulheres ganhando prêmios naquela época, quis muito romper essa barreira.

Acha que o trabalho de Kat Von D, à frente do Los Angeles Ink, ajudou a desmistificar a profissão?
Danielle:Ah sem duvida!!! Ter uma tatuadora famosa na TV foi muito importante para mostrar que as mulheres também podem. O Mais interessante é que o assunto é explorado como novidade, mas nem é, quando eu estava nascendo a Ana Velho já tinha estúdio em Ipanema e fazia seu trabalho muito bem feito para a época. Também tem a Medusa que é veterana, nunca vi as mulheres no mercado de tatuagem como novidade, por já conhecer a existência de algumas mulheres na profissão, o que é realmente fato é que somos minoria, mas o motivo disso eu desconheço.
Elisa:Certamente, ajudou principalmente na desmistificação da mulher como tatuadora, já que o mundo todo pode acompanhar os trabalhos realizados por ela e suas companheiras de forma magistral. Mostrou ao telespectador todo o procedimento descontraidamente, fazendo com que muitas pessoas que sentiam medo da dor ou da desaprovação, realizassem seus sonhos de se tatuar.

Qual a maior dificuldade que você enfrenta?
Danielle: Conciliar a vida de mãe com a profissão, pois a tatuagem toma muito do meu tempo. Essa é uma das maiores dificuldades, a outra é a dificuldade de comprar material de qualidade, principalmente tintas, o governo é muito cruel e nos amarra de todas as maneiras não nos deixando muitas opções.
Elisa:O fato de o tatuador não ser reconhecido como profissional no Brasil. Esse é um passo muito grande que estamos longe de conquistar. Os direitos do tatuador como trabalhador do país, com condições justas de trabalho e reconhecimento. Muita gente me pergunta “O que você faz além de tatuar?”. Você perguntaria isso à um médico ou advogado? A sociedade ainda tem um preconceito muito grande em relação à arte no nosso país.
Ana: A sociedade que acha que a nossa profissão ainda não é algo muito certo na vida. Algo que me irritava bastante era quando achavam que pelo fato de eu ser mulher só tatuava coisas fofinhas e pequenas.

Já aconteceu de clientes entrarem em estúdio e ignorarem só pelo fato de serem mulheres?
 Elisa:Hoje em dia acredito que isso aconteça pouco. É fato que recebo muitas indicações dos meus clientes, do contrário não estaria tatuando no meu estúdio na minha própria casa, sem necessitar de movimento de loja de rua. Como disse numa resposta anterior, no começo, com pouco trabalho pra mostrar isso pode acontecer, mas com o passar do tempo, o amadurecimento do trabalho e do bom atendimento, tudo isso some.
 Ana: Já sim, mas quando eles olham o meu álbum e perguntam 10 vezes se fui eu mesma que fiz, adoro ver a cara deles (risos), isso rompe um tabu e faz as coisas serem diferentes. Não existe isso de ser homem ou mulher, se você for bom, eles tirarão o chapéu pra você e te respeitarão. Lógico que contamos com qualidades incríveis além da nossa dedicação, mas isso somente um homem que já se tatuou com ambos poderá dizer. O importante é dar o melhor de si, para fazer com que essa fase passe o mais rápido possível e que cada vez mais possamos mostrar o nosso jeito feminino e incrível de fazer as coisas.

Por fim, selecionei dois comentários de entrevistados e gostaria que comentasse a respeito:

Não acho que seja preconceito, acho que seja uma questão de intimidade. homem, na maioria, gosta de conversar com homem.. e a tatuagem tem toda o processo de elaboração e aquele período de tempo para ser feita.. acredito que quemnão tem costume de fazer, vai procurar alguém que irá compreender o que ele quer e de cara pensa em outro homem.. e sem contar que tatuagem doí pra carai que só a porra, imagina um cabrão se cagando de dor pra uma mulher.. acho que constrange..” (Rebeca Aderaldo, estudante de Audiovisual)
Danielle: Eu discordo totalmente, pois mostrar fragilidade a uma mulher é bem menos constrangedor, afinal a mulher nasceu para sentir dor e sabe muito bem o que é isso, partindo das cólicas menstruais até o parto. Eu acho muito normal o homem ser mais sensível a dor que as mulheres e isso não me surpreende. Me coloco no lugar de homem, na qualidade de macho forte, dando chilique na mão de outro homem, isso eu acharia estranho, apesar também de não achar a tatuagem um procedimento tão doloroso assim.
Elisa: Discordo completamente. Tenho muitos clientes homens que se sentem completamente à vontade comigo, mesmo por horas a fio e estes indicam amigos e familiares. Acho que se a mulher mostrar profissionalismo e um bom trabalho, qualquer ser humano que se sinta atraído pela arte dela, vai querer um trabalho dela no próprio corpo. Há também o fato de muita gente achar que as mulheres tem a ‘mão mais leve’, sendo mais sensíveis e infligindo assim, menos dor no tatuado. Claro que isso é relativo, conheço muitos homens tatuadores com ‘mãos de fada’ (eles aliás detestam esse termo, obviamente). Isso pode ser relativo também, eu sempre tive facilidade em conversar com qualquer tipo de pessoa, seja qual for o sexo, opção sexual, faixa etária ou classe econômica.
Ana: Olha te digo que tem homens que preferem muito mais sofrer nas mãos de uma mulher…rs Dizem que somos mais pacientes, detalhistas e até que a mão é mais leve. Daí vai de cada um.

“Mas acho q preferiria fazer com mulher, que geralmente tem a mão mais leve e mais cuidado com traços e nuances de cores. Mais vocação artística, eu até diria.” (Rodrigo Gomes, estudante de Engenharia Química)
Danielle: Acredito!! Em todos esses anos de experiência é o que eu mais ouço dos homens mesmo. Acredito que as mulheres se apeguem mais a detalhes. Mas quanto a vocação artística, isso é uma atribuição do ser humano independente de sexo.
Elisa: Acredito que se trate mesmo de uma questão de preferência, se você observar o trabalho do pintor Celso Mathias, vai perceber a sensibilidade e intimidade que ele tem com as cores e formas. Tanto homens quanto mulheres tem sensibilidade perante a arte, cada um da sua forma, formando um leque gigantesco de possibilidades de escolha pra tatuagem específica que cada pessoa deseja fazer. Creio que seja o mesmo que perguntar à uma mulher se ela prefere se consultar com um doutor ou uma doutora, vai da preferência de cada um.
Ana:São opiniões, que devem ser respeitadas, esse foi o ponto de vista não só dele, mas de muitos que me procuram aqui.

Curiosidades:
As mulheres são quem mais recorrem à remoção de tatuagens.
20% das mulheres tatuadas têm uma tatuagem na zona lombar.
O número de mulheres tatuadas quadruplicou entre 1960 e 1980.
Para fotos de mulheres tatuadas do início do século XX, clique aqui

[Momento Lifetime] Sobre crenças e irresponsabilidade


A facilidade que nós temos em nos deixar envolver e convencer pelas crenças mais obscuras, chegando ao ponto de fazer diversas besteiras - das inofensivas a outras mais graves -, na convicção de que não só sabemos o que estamos fazendo, mas sabemos mais e melhor que os outros. Até que cai a ficha.
A coluna da semana é sobre aquele momento em que você percebe que suas crenças não fazem tanto sentido assim e estão te levando à irresponsabilidade e inconsequência. Clica aqui para ler no Meu Lifetime.

Amós Oz: boa literatura X má literatura


“[O maior mérito da literatura e da arte] não é propor uma reforma social ou fazer uma crítica política. Como se sabe, o quintal da filosofia e da teologia está entulhado de esqueletos de romancistas e poetas que quiseram competir com filósofos e teólogos, com ideólogos, ou mesmo com profetas. Muito poucos entre eles tiveram êxito, mas isso não está em questão. Uma literatura ruim pode incluir mensagens morais muito importantes e positivas, e continuar a ser literatura ruim.

A característica que define a boa literatura, ou a arte, é a capacidade de fazer se abrir um terceiro olho em nossa testa. Que nos faça ver coisas antigas e batidas de um modo totalmente novo. ‘Mesmo uma visão antiga tem um instante de nascimento’, como expressou o grande poeta israelense Nathan Alterman. A grande literatura tem se posto nos lugares e nas peles dos outros, estranhos, às vezes odioso, seres humanos, dom Quixotes, os Iagos, os Raskolnikovs deste mundo. A literatura ruim não vai fazer abrir um terceiro olho. Vai simplesmente repetir o que já sabemos, e nos mostrar apenas o que já vimos.

O que a literatura ruim efetivamente faz é fixar o  punhado de clichês morais e psicológicos que a fofoca nos inflige. Sim, a fofoca é a prima da literatura de má qualidade, embora a literatura tenha vergonha desse parente e não o cumprimente quando se cruzam na rua.

A fofoca também é uma filha da curiosidade. Mas a fofoca ama os clichês, que adora reiterar nossos preconceitos e nos assegurar de que tudo e todos continuam a ser a mesma coisa. A boa literatura faz o oposto da fofoca: ela nos conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos e sobre os outros. Ou algo que não queríamos saber.

Porque, enquanto a fofoca se basta com a profundidade da pele, a literatura consegue às vezes realizar o milagre de cavoucar sob a pele. E enquanto a fofoca pretende nos agradar e lisonjear, a literatura tenta nos perturbar.

Assim, um boato dirá: ‘Oh, o homem está ficando velho!’. Um romancista medíocre escreverá: ‘A velhice é uma coisa tão triste!’. Mas Tchékhov pode escrever sobre um velho médico curvando-se para uma moça desmaiada, tomando seu pulso, erguendo-se e pronunciando estas três palavras devastadoras: ‘Eu esqueci tudo’."

In Como curar um fanático, tradução de Paulo Geiger, Companhia das Letras.




[Momento Lifetime] Fanatismo: entre a admiração saudável e a obsessão doentia


Depois de suas semanas de pausa (as férias por aqui continuam até o dia 23!), a coluna da semana fala sobre o fanatismo, que pode ser uma diversão saudável - e necessária para o desenvolvimento pessoal na adolescência -, ou se transformar em uma obsessão desagradável e até doentia. Passa lá no site pra ler, clicando aqui.






Momento Lifetime: O mal contido no comportamento de grupo


Essa semana, escrevi sobre o comportamento de manada, que faz pessoas abrirem mão de suas individualidades em nome de serem aceitas pelo grupo e o reflexo disso no assédio online a pessoas como minha amiga Petra Leão e a Caça-Fantasma Leslie Jones. Clica aqui para ler lá.








Leituras do Trimestre #2


Junho foi um mês completamente #FAIL. Só li um livrinho - um quadrinho - que tem mais ilustração que texto. Acho que o período de provas na faculdade + colocar resenhas atrasadas em dia + escrever a coluna da semana pro Lifetime me deixaram sobrecarregada e a ressaca bateu tão braba que não estou conseguindo ler mais nada no último mês e meio. Não terminei o Projeto Penny Dreadful (faltam 3 livros) e também deixei de lado o #12MesesdePoe - que pretendo colocar em dia ainda. Nem filmes eu tenho assistido, o que deixou o #52FilmesPorMulheres em suspenso. Apesar disso, as séries estão em dia: Game of Thrones e Orange is The New Black se recuperaram das fracas temporadas anteriores, deixando ganchos incríveis para as próximas; Whitechapel foi um grande achado na Netflix (indicada para fãs de Sherlock), apesar da última temporada se tornar um filme ruim de terror e Penny Dreadful foi encerrada precocemente com uma temporada promissora, que poderia ter dado em grandes tramas caso estendessem a série por mais um ano.

Estou lendo, bem aos poucos, o ótimo Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro e tentando terminar, também aos poucos, a biografia de Frida Kahlo. E é isso.

Leituras do Trimestre #1

Clicando nas capinhas, você pode acessar a resenha, entrevista ou comentário sobre o livro.

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Momento Lifetime - Nós por nós: o que as mulheres temem


O texto da semana no Momento Lifetime é sobre a diferença entre os medos masculinos e femininos. Para ler lá no site, clique aqui.






A garota da banda: uma autobiografia, Kim Gordon


Notas sobre o livro de Kim Gordon:

Kim decide começar seu livro pelo fim: sem rodeios, o prólogo faz um paralelo entre o fim do seu casamento de 27 anos com Thurston Moore e os últimos shows do Sonic Youth. "Depois de trinta anos, aquela noite era o último show do Sonic Youth", escreve ela, se referindo à apresentação que a banda faria no festival SWU, em São Paulo, em 2011. "Éramos provavelmente os menores artistas da escalação. Era um lugar estranho para as coisas chegarem ao fim".

      O casal que todos acreditavam que era de ouro e normal e eternamente intacto, que deu a jovens músicos a esperança de que eles poderiam sobreviver no mundo louco do rock-and-roll, agora era apenas mais um clichê de um relacionamento maduro fracassado -- uma crise de meia-idade masculina, outra mulher, uma vida dupla.

Há muito rancor, como era de se esperar. "Ele era um adolescente perdido em fantasias de novo, e o exibicionismo de rockstar que fazia no palco me irritava profundamente", Kim desdenha do ex-marido enquanto revela que eles nem mesmo olhavam um para o outro durante a apresentação, e ainda fala sobre seu estado emocional, fragilizado a tal ponto em que "mal conseguia me segurar durante a primeira música". Apesar disso, o interesse dela não está em passar todo o livro falando sobre os sacrifícios do relacionamento, o mau comportamento de Thurston e sentindo pena de si mesma. A partir do comportamento de Courtney Love durante o mesmo festival, que havia brigado com a plateia devido a um cartaz sobre Kurt Cobain, ela se dá conta de que não queria ser vista como o "desastre" que Courtney é e nem que o último show fosse desagradável. E é com esse mesmo espírito que Kim escreve seu livro - a partir do fim de seu casamento e das atividades de sua banda, ela prefere fazer uma reflexão sobre sua trajetória pessoal e enquanto artista, como quem junta as pecinhas de um enorme quebra-cabeça.

***

As raízes de sua família, a infância na Califórnia, os pais intelectuais e o irmão esquizofrênico são parte crucial no processo de formação de Kim Gordon enquanto artista. Não à toa, ela parece se interessar bastante por psicanálise e frequentemente cita as teorias de Freud ao longo do seu texto. Sobre a Califórnia, Kim afirma ser "um lugar de morte, um lugar para o qual as pessoas são atraídas porque não percebem, no fundo, que elas nas verdade têm medo do que querem. (...) Desejo e morte se misturam com a emoção e o risco do desconhecido". Assim que pôde, se mudou para Nova York, onde foi garçonete, pintora de casas, balconista em gráfica, livreira e funcionária de galeria de arte, ia a pé para o trabalho e sobrevivia comendo papa de milho, macarrão de ovos, cebola, batata, pizza e cachorro-quente. "Não sei direito como consegui. Mas parte de ser pobre e batalhar em Nova York é ganhar a vida durante o dia e fazer o que você quiser com o resto do tempo". Outros tempos.

***

Keller, o irmão de Kim, vai desempenhar um papel fundamental em sua vida. Ela se refere a ele como "a pessoa que mais do que qualquer outra no mundo todo moldou quem eu era, e quem eu acabei virando". O descreve como "brilhante", "manipulador", "sádico", "arrogante" e "quase insuportavelmente articulado". "E talvez por ele ter sido tão incessantemente verbal desde o início, eu me transformei no seu oposto, sua sombra - tímida, sensível, fechada" até o ponto em que precisou se tornar destemida para não sucumbir à própria hipersensibilidade. No capítulo dedicado a ele, Kim conta sobre como ela queria ser como ele e como a crueldade do irmão a fez se sentir invisível inclusive para si mesma. Keller era carismático, inteligente, um líder nato e tirânico que a tratava com zombarias e até violência física. Ela credita a ele a criação de sua persona fria e impassível, em dois trechos de partir o coração - embora muitas mulheres saibam exatamente do que ela está falando:

Em determinado momento, eu desliguei por completo. Sabendo que eu ia ser ridicularizada ou provocada, faria qualquer coisa para não chorar, ou rir, ou mostrar qualquer emoção. O maior desafio para mim era fingir que eu tinha alguma habilidade sobre-humana para suportar a dor. Acrescente a isso a pressão que as meninas sentem de qualquer maneira para agradar as outras pessoas, para serem boas, e bem educadas e organizadas -- e eu desviei ainda mais para um mundo onde nada poderia me perturbar ou me prejudicar.
E

A imagem que muita gente tem de mim de desapegada, impassível ou distante é uma persona que vem de anos provocada por todos os sentimentos que já expressei. Quando eu era pequena, nunca houve qualquer espaço onde pudesse receber alguma atenção que não fosse negativa. Arte, e a prática de se fazer arte, era o único espaço que era só meu, onde eu podia ser qualquer pessoa e fazer qualquer coisa, onde apenas usando minha cabeça e minhas mãos eu podia chorar, ou rir, ou ficar brava.
As coisas se tornam mais obscuras no início da adolescência, durante a época em que a família passou morando em Hong Kong, China. Ela e o irmão dividiam o mesmo quarto e uma noite, ele tentou subir em sua cama. Com sua recusa, foi xingada de "vagabunda", "uma palavra que foi difícil de esquecer, embora eu soubesse que ele não estava em seu juízo perfeito". Ainda assim, Kim manteve o silêncio e não contou nada aos pais. "Eu ainda o idealizava, me convencia de que ele era melhor do que eu era, queria protegê-lo", escreve ela. "Eu me deixava sentir culpada, como se eu fosse de alguma forma responsável por tudo o que ele fazia de errado". Essa idealização do irmão, essa culpa pelos abusos sofridos, esse apagamento de si mesma foram as consequências inevitáveis de todo o gaslighting sofrido por Kim por um irmão com transtornos mentais que, pelo que ela dá a entender, não foi diagnosticado cedo, tendo sua relação com ele sendo encarada pelos pais como uma simples rivalidade entre irmãos.

De nerd, Keller se tornou surfista, atraindo diversas meninas bonitas, ficou rebelde e passou a usar maconha e LSD. Na faculdade, se interessou por Shakespeare e Chaucer e demonstrar comportamento obsessivo. Mesmo assim, não ocorreu a ninguém que seu comportamento poderia estar ligado a uma doença mental. A época era a de quebra de limites, todos usavam drogas e apresentavam comportamento que iam do excêntrico ao antissocial. Se hoje as pessoas que sofrem com transtornos mentais ainda não sub-diagnosticadas devido a ainda enorme desinformação a respeito de tais transtornos, consequência de um misto de preconceito e banalização, naquela época era ainda pior. Keller começou a ir ladeira abaixo, mas os pais descartavam a ideia de levá-lo a um psiquiatra. "Meus pais eram de uma geração que se preocupava com seus próprios problemas, que considerava a psicoterapia um luxo. (...) Meus pais eram educados, mas eles não tinham nenhuma atração pela psicologia, e terapia e remédios psiquiátricos eram para os realmente loucos (...), não para seu próprio filho idiossincrático". Quando finalmente cederam, já era tarde demais. Em uma inversão de papeis, Keller agora recorria a Kim para conseguir ajuda.

Eu havia me tornado a irmã mais velha simbólica, uma protetora, que é o papel que ainda desempenho Keller até hoje. Ele nunca fez isso por mim. (...) Ainda luto com a ideia de que eu o deixei fazer com que eu me sentisse mal comigo mesma. (...) Me pergunto o que ou quem eu teria me tornado se ele não fosse meu irmão.
***

Kim Gordon sabia que queria ser artista desde criança, embora não soubesse como. "Nunca me ocorreu que eu poderia falhar" - é o tipo de frase que recorrentemente vemos sair da boca de artistas bem-sucedidos. O dom está presente, há um chamado e eles vão, embora nem sempre isso signifique sucesso fácil ou instantâneo. Ou sucesso mesmo. Outra frase recorrente é o lugar-comum "Eu já era artista desde criança". No caso de Kim, isso é verdade, embora ela saiba quanto isso soa afetado. "Eu estremeço quando lembro de Andrea Fraser, a artista performática, uma das artistas mais destemidas que eu conheço, usando essa frase em uma de suas apresentações para criticar as instituições de arte e os mitos sobre artistas: 'As palavras exatas são: Eu queria ser artista desde que tinha 5 anos'. Porque essa era minha frase". Sua mãe pensava que ela seria artista gráfica. Ela entrou na faculdade de Artes no Canadá por ser mais barato, e através do programa interdisciplinar, aprendeu desde música a cinema. Seu envolvimento com artistas a levou a duas de suas primeiras grandes influências:  John Knight, que a apresentou à arte conceitual, e Dan Graham, que mostrou a ela todas as bandas de No Wave que tocavam no centro de Nova York e gostava de analisar os aspectos psicológicos e sociológicos da arte.

Já morando em Nova York, Kim entra para o mundo da arte a partir das artes plásticas, através do seu trabalho em uma galeria, mas a música, principalmente oriunda do No Wave, sempre fez parte de sua rotina. No livro, ela esmiúça toda a cena artística da época, assim como a própria cidade e a cultura da sociedade da época, dando ao leitor um panorama sobre os bastidores do universo artístico nova iorquino dos anos 80, em especial a do anti-movimento já citado, que em tradução livre seria "Onda Nenhuma", "um termo cunhado por pessoas cansadas do costume da imprensa de definir qualquer cena ou gênero como uma redução barata ou fácil. (...) Basicamente, era anti-Wave". Mas é errado definir o Sonic Youth como uma banda No Wave: segundo Kim, o que eles estavam fazendo era tentar criar alguma coisa a partir daquilo.

***

What is it like to be a girl in a band?
I don't quite understand

A obra não foi intitulada de A garota da banda - referência retirada dos versos de 'Sacred Trickster' -, apenas por Kim ser uma mulher em um universo considerado masculino. A condição feminina é um assunto importante para ela, que a todo momento revela situações de sexismo envolvendo a si mesma ou a outras mulheres que passaram por sua vida, e ainda faz reflexões a respeito do lugar em que as mulheres em geral ocupam no mundo. A primeira de todas é, obviamente, sua mãe que, para ela, sempre deixou a impressão de que queria ter tido a oportunidade de fazer mais de sua vida. Na passagem em que conta sobre como Dan Graham a incentivou a escrever artigos e contribuir para o diálogo cultural, ela não o poupa da seguinte observação: "Na época, o próprio Dan estava escrevendo artigos sobre grupos femininos e saindo por aí fazendo declarações autoritárias sobre o feminismo. Como a maioria dos homens, ele era apenas um grande fã da sexualidade feminina". Qualquer semelhança com os chamados feministos de hoje, não é mera coincidência.

Seu primeiro texto, apesar disso, foi sobre homens e o vínculo masculino. Ela relembra de quando era pequena e via na estante de seu pais livros intitulados como Homens e o Trabalho e os brinquedos de construtor do irmão, e passou a associar trabalho, construção e invenção a atividades masculinas. "Olhando para trás, eu estava claramente desvalorizando o que as mulheres faziam. Como aquilo tinha acontecido?", ela se questiona com uma pontada de culpa, embora nada seja mais natural.

Frente a frente, os homens muitas vezes não tinham muito o que dizer uns aos outros. Eles encontravam alguma proximidade ao se concentrar em uma terceira coisa que não eles: música, videogames, golfe, mulheres. As amizades masculinas tinham formato triangular, e isso permitia que dois homens tivessem uma forma de intimidade. Em retrospectiva, foi por isso que entrei para uma banda, para que eu pudesse estar dentro da dinâmica masculina, não olhando para dentro através de uma janela fechada, mas olhando para fora.

O trecho citado acima é interessante por sintetizar como funciona a cabeça de mulheres (e me incluo entre elas) que durante a juventude passam a preferir a amizade de homens às de outras mulheres. O tanto de machismo que nos leva a isso não está no fato de os assuntos e a companhia masculina ser mais estimulante - e muitas vezes o é, de uma forma completamente não sexual e não romântica - mas justamente porque o ambiente em que eles crescem e amadurecem, os laços triangular feito em torno de um estímulo em comum, proporciona o senso de pertencimento que entre as mulheres muitas vezes não acontece, por sermos levadas a ter como preocupações principais a nossa beleza, os nossos dotes de subserviência e quetais.

***

Obviamente, Kim Gordon vai falar sobre como conheceu Thruston Moore, como iniciaram seu relacionamento e como o Sonic Youth se formou, utilizando capítulos inteiros para escrever sobre a época em que se deu cada álbum, contando sobre bastidores e como percebia seu lugar naquele universo. Entre os capítulos 31 e 33, ela dedica a dar uma pincelada sobre a presença de mulheres na música no início dos anos 90 ("Se eu alguma vez apareci na Rolling Stone, foi para responder perguntas como 'O que você acha das mulheres no rock, como a Madonna?'"), suas colaborações para a revista Spin, o movimento Riot Grrl e como chegou a produzir o primeiro álbum do Hole, a pedido da própria Courtney Love - a quem chama de sociopata. Kim conta também sobre como estremeceu quando Courtney falou que achava Kurt Cobain atraente, e torcer para que eles jamais se conhecessem. De certa forma, ela engrossa o coro dos que acreditam que Courtney ajudou a levar Kurt à ruína -- o que é compreensível, já que Kim Gordon e Kurt Cobain eram grandes amigos, ao passo que Courtney Love apenas criasse problemas e tenha feito diversas declarações terríveis sobre Kim na imprensa.

É engraçado como sempre penso em Kurt. Um elemento de sua autodestruição foi ter escolhido a Courtney para se alienar de todos a seu redor, ao mesmo tempo em que a fama o alienava de qualquer comunidade que ele tivesse participado.

***

Já estabelecida na carreira, mantendo um relacionamento estável com Thruston e chegando aos 40 anos, Kim Gordon começou a se apegar à ideia de se tornar mãe. Foi apenas depois do nascimento de Coco que ela se deu conta de que, enquanto casal, eles nunca haviam conversado sobre maternidade, paternidade, igualdade na criação dos filhos e das responsabilidades domésticas. "Eu simplesmente assumi que Thurston apoiava as questões femininas". E ele abraçou a paternidade. Mas como ela pontua, "descobri que não importa o quanto você acha que a experiência será justa e compartilhada, ou o quanto o homem acredita que a responsabilidade com as crianças deve ser dividida, não será". Ela conta que ter um bebê criou uma crise de identidade em si mesma, reforçada por jornalistas sempre perguntando como era ser uma mãe no rock. Mas não apenas isso: a dinâmica em seu relacionamento mudou, ela passou a se sentir sozinha e ele, a se afastar e querer fazer tudo do próprio jeito.

Filhos muitas vezes podem trazer crises aos relacionamentos, e não são poucos os casais - principalmente aqueles que têm filhos não planejados antes de amadurecer a relação - que se separam alguns anos após o nascimento das crianças. O casamento de Kim e Thurston ainda duraria muitos anos, mas não seria mais a mesma coisa. E nem a vida de Kim enquanto mãe de uma criança pequena e baixista de uma banda de rock, com uma rotina louca de entrevistas, estúdios, turnês e viagens. Até os 10 anos da menina, o Sonic Youth adaptou sua agenda à programação escolar de Coco, para que ela pudesse excursionar com os pais. O que é, obviamente, desgastante: malas, disciplina, camarins, banheiros. Por mais suporte que se tenha, a rotina de uma mãe ativa nunca é tranquila. Assim como ser uma filha de rock stars também não deve ser nada fácil.

***

Com reflexões e insights sobre o mundo da arte, a rotina de uma banda de sucesso, o lugar em que a mulher ocupa em um universo masculino e o lugar em que ela própria, Kim Gordon, esteve enquanto filha, irmã, aprendiz, artista, esposa, mãe e mulher, A garota da banda desglamouriza toda a imagem de casal perfeito que os fãs de música poderiam ter a respeito de Kim e Thruston, assim como desmitifica a própria Kim e sua persona artística. O que fica é uma mulher como todas nós, de inteligência afiada e personalidade curiosa e observadora, muitas vezes insegura sobre si mesma e que, também muitas vezes, deixou de se impor em prol de outros. E que sofreu uma grande decepção. Mas a sua força e sua resiliência sobressaem, e a Kim Gordon que encara o leitor na última página, sentada de maneira firme em meio à sua obra é uma pessoa completamente diferente da que passou por todas essas coisas: "Eu sei, parece que sou uma pessoa completamente nova agora, e acho que sou".


A garota da banda: uma autobiografia
Kim Gordon
Tradução de Alexandre Matias e Mariana Moreira Matias
288 páginas
Fábrica231/Rocco






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