Momento Lifetime: A dor do outro


O texto da semana no Momento Lifetime é sobre o Movimento Setembro Amarelo e o lidar com o suicídio e o sofrimento alheio.

É só clicar aqui para ler lá.



Alucinadamente Feliz, Jenny Lawson



Jenny Lawson é uma jornalista americana que ficou conhecida por seus posts honestos e cheios de humor negro em seu blog The Bloggess, onde ela conta sobre sua rotina enquanto pessoa que convive com transtornos psiquiátricos. Seu blog é premiado e seu primeiro livro, Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu se tornou um best-seller, e acabou sendo escolhido como melhor livro de 2012 pelo Goodreads Choice Awards. Em abril deste ano, a editora Intrínseca publicou este Alucinadamente Feliz, segundo livro da autor, cuja orelha diz se tratar de "um livro ridiculamente hilário sobre depressão e ansiedade". A proposta aparentemente seria esta: após se ver entrando em uma crise de depressão numa semana cheia de notícias ruins, Lawson decide que dessa vez ela vai lutar contra as emoções negativas sendo "alucinadamente feliz". Sim, é verdade que em alguns textos, principalmente no início, a autora se esforça para manter o foco em compartilhar experiências em que ela decide enfrentar a vida, obrigatoriamente de forma positiva, a se deixar abater pelas crises de ansiedade ou depressão. E também é inegável que ela é divertida e sabe transformar qualquer situação - da observação de cisnes em um lago a uma reunião com o contador - em episódios cômicos, mas em muitos outros ela simplesmente abandona o tema do livro para contar alguma história engraçadinha sobre sua vida (ou contar alguma história em que ela agiu de forma particularmente engraçada), inflando o livro com textos que funcionam como fillers, as encheções de linguiça. Então, se o leitor procura o livro com a intenção de saber mais sobre viver com transtornos mentais, lidar com as crises e tudo mais, pode ficar um pouco decepcionado; já a pessoa que estiver a fim de ler histórias engraçadas protagonizadas por uma mulher totalmente à vontade com sua excentricidade, vai estar no lugar certo.

E apesar de eu ter me identificado e me divertido com muitas das histórias - a da viagem patrocinada à Austrália, por exemplo, é particularmente divertida, embora nada tenha a ver com a proposta inicial do título -, senti um ligeiro incômodo com a forma como Lawson se esforça para ser engraçada todo o tempo, de forma a fazer parecer que ter transtornos psiquiátricos é sinônimo de ser meio tapada ou sem noção. Dá pra perceber que é um recurso cômico, com intenção de fazer humor autodepreciativo, mas só parece meio bobo ou infantil. A imaturidade inclusive é corroborada pela própria autora logo no início do capítulo "Aqueles biscoitos não sabem nada sobre o meu trabalho", que ela começa com "-- MAS EU NÃO QUERO SER ADULTA -- gritei, numa posição vagamente fetal, no canto do escritório. -- AINDA NÃO ESTOU PRONTA PARA ISSO". Pode ser engraçadinho para leitores mais jovens, mas para adultos da mesma geração de Lawson soa apenas constrangedor.

A dinâmica com a qual ela descreve seu casamento também reforça diversos estereótipos, dos menos lisonjeiros. Victor, seu marido, é representado de forma constantemente condescendente, como se fosse responsável por uma criança travessa, enquanto ela se esforça para se comportar mesmo como tal. Dá para resumir a interação entre os dois como ela falando ou fazendo coisas inapropriadas e o marido suspirando, como um casal formado por uma pessoa centrada e uma lunática. O que não apenas estereotipa as pessoas que, como ela, convivem com transtornos mentais, como também reforça a imagem que o senso comum faz das mulheres como loucas, incapazes ou meio burrinhas, sempre precisando de tutela. Um exemplo:

Meu trabalho era ganhar dinheiro sem querer enquanto o trabalho dele era se certificar de que eu não perdesse o dinheiro quando fosse plantar bananeira no estacionamento depois de os bares terem fechado.

A introdução do capítulo "Louca como uma raposa ao contrário" ilustra ainda melhor (grifos meus):

Victor me acusou de ser insana, porém na verdade eu sou louca como uma raposa. Mas uma raposa louca. Não uma raposa normal que age de forma maluca, só que não é mesmo maluca. (...) As pessoas acham que sou louca e depois descobrem que é tudo um esquema e que sou superinteligente. Então, elas passam mais algum tempo comigo e descobrem que na verdade sou só louca mesmo, porém tenho muita sorte, porque mesmo assim tudo dá certo.

Além de não fazer muito sentido, é um desserviço, já que dá a entender que as pessoas loucas (me aproprio do termo para ressignificá-lo de forma positiva, de acordo com a proposta da autora, embora ele esteja incorreto) fossem burras ou incapazes, um senso comum que todo o debate em torno da saúde mental procura derrubar. Inclusive é bom pontuar que muitas pessoas com transtornos mentais sérios como os de espectro autista, por exemplo, são especialmente inteligentes. Inteligência e capacidade para ter autonomia não caminham junto, necessariamente, do comportamento sociável, então este é o tipo de piada que, em um livro cuja proposta é tratar as doenças mentais de forma positiva, soa completamente inadequada. Mesmo que ela se refira a si própria e se aproprie de um termo pejorativo para um motivo de orgulho, o faz de uma forma que não rompe com o senso comum. Pior, pois o reforça.

E já que estamos falando de estereótipos, vale apontar mais unzinho que passa meio despercebido, mas que contém todo um discurso esquisito. No mesmo capítulo mencionado acima, ela faz a seguinte observação: "Alguns homens são como vulcões adormecidos, sempre prontos para explodir de raiva. E também para ejacular por todos os lados sem aviso. (...) Homens aparentemente calmos ficam furiosos com mais facilidade". O que ela quer justificar aqui, eu não sei.

Mas o livro tem seus momentos, e a própria Jenny Lawson demonstra que não se deve levar essas piadas muito a sério quando resolve escrever com seriedade. Há capítulos sobre automutilação e crises paralisantes de ansiedade, embora sejam muito breves e ela procure não destrinchar muito esses assuntos. O capítulo em Victor conduz uma entrevista coma  esposa é bem rico, e onde ela melhor aborda a luta diária que é conviver com a depressão. Ali, ela trata diretamente e se didatismos sobre o que é a depressão, dá conselhos honestos para quem precisa de ajuda, esclarece o que não ajuda uma pessoa deprimida e como lidar com pessoas que não entendem a doença. E a inclusão deste apêndice, que na verdade aparece no meio do livro, é um grande acerto, já que funciona como um propagador de informações de forma acessível ao amplo público que deve atingir.

Eu posso dizer que 'Anime-se' é quase universalmente visto como o tratamento mais inútil para a depressão. (...) Algumas pessoas não entendem que, para muitos de nós, o transtorno mental é um sério desequilíbrio químico, e não só uma 'melancolia de segunda-feira'. Essas mesmas pessoas bem-intencionadas me dizem que estou impedindo a mim mesma de me recuperar porque 'só preciso me animar e sorrir'. É nesse momento que considero a possibilidade de decepar os braços delas e em seguida culpá-las por não conseguirem pegar seus braços decepados e os levarem para serem reimplantados.

Muitos pensam que são um fracasso quando a primeira ou segunda ou oitava solução para depressão ou ansiedade não funciona como queriam. No entanto, uma doença é uma doença. Não é sua culpa se o medicamento ou a terapia que indicaram para tratar seu transtorno mental não funciona perfeitamente ou se funcionou por um tempo, mas depois parou de funcionar. Você não é um problema de matemática. Você é uma pessoa. O que dá certo para você nem sempre vai funcionar para mim (e vice-versa), porém acredito que existe um tratamento para cada um que se der o tempo e a paciência necessários para encontrá-los.
Jenny Lawson, apesar e tudo, é honesta - por mais desgastado que esteja esse adjetivo. Ela não se envergonha e nem tenta esconder sua inadequação; em vez disso, assume sua condição e transforma isso em uma bem-sucedida carreira. O tanto de esforço que investe em querer ser engraçada me faz desconfiar de que ela não sinta tanta segurança assim em tratar de assuntos obscuros com mais profundidade, talvez temendo uma rejeição dos seus leitores ou talvez por alguma insegurança. Quando a mistura de assunto sério + humor funciona, ela brilha. Quando não, soa apenas como uma comediante de imaginação fértil e um tanto infantil tentando passar mensagens motivacionais. Uma pessoa "alérgica a fazer sentido", nas palavras atribuídas a seu marido. Mas Alucinadamente Feliz pelo menos funciona no quesito "tá tudo bem, tamo junto" e, pra muita gente, isso já é o suficiente.

Leia também:
Jenny Lawson: Desistir poderia ser mais fácil, mas não seria melhor


Alucinadamente Feliz
Jenny Lawson
Tradução de Andrea Gottlieb de Castro Neves
352 páginas
Editora: Intrínseca

Momento Lifetime: Perpetuando o amor através de filhos (apenas não)


Era um comentário em um post de uma amiga, virou textinho e foi publicado no Momento Lifetime: na coluna da semana, dei um pitaco sobre como acho nocivo o discurso, aparentemente inofensivo, de enxergar os filhos (mesmo que hipotéticos) como perpetuação de um amor ou, pior ainda, memória afetiva de um relacionamento que não durou. O mote foi uma frase de Gregório Duvivier em sua coluna para a Folha.

Algumas pessoas argumentaram que apontar isso seria um exagero, porque "é óbvio que é só uma ideia hipotética, breguinha e romântica e que muitas vezes nem se concretiza". É verdade, mas muitas meninas de fato engravidam acreditando nisso. E, muitas vezes, estimuladas por seus companheiros. De onde eu venho, não foram poucos os casos de amigos e amigas terem se tornados pais e mães adolescentes com ideias românticos desse tipo - e terem tornado as próprias vidas e de (ex)companheiros e companheiras muito mais difícil.

Então sim, essa noção de que é um exagero apontar para a irresponsabilidade desse discurso é tão tóxica e errada quanto o discurso em si. Da mesma maneira que o ideal do amor romântico é, muitas vezes, tóxico para as relações afetivas também. Uma blogueira feminista tentou explicar para a gente de uma forma bem condescendente e prepotente que era óbvio que ninguém que faz um discurso sobre "como teria sido bom ter tido um filho com você" pensando nas fraldas, nos cuidados, na rotina hard core. E é justamente por isso que a maternidade e a paternidade irresponsáveis geram mulheres sobrecarregadas, muitas vezes abandonadas, pais ausentes e crianças ansiosas e confusas. É assim para todo mundo? Claro que não. Mas seria interessante se antes de romantizar a ideia de colocar uma pessoa no mundo, a gente levasse em consideração o que isso significa de verdade.

Admito que o texto não é aprofundado (mais uma vez, surgiu de um comentário que eu estava fazendo no Facebook), mas explico melhor meu ponto de vista lá. É só clicar aqui para ler.


Jenny Lawson: 'Desistir poderia ser mais fácil, mas não seria melhor' #SetembroAmarelo


Este mês foi lançada a campanha Setembro Amarelo, cujo objetivo é quebrar o tabu a respeito do suicídio, falando sobre ele aberta e francamente e estimulando pessoas com pensamentos suicidas a procurar ajuda. Vale a pena conhecer a iniciativa no site e na página do Facebook.

Aproveitando o ensejo, compartilho aqui dois trechos escrito pela autora Jenny Lawson em seu livro Alucinadamente Feliz, traduzido por Andrea Gottlieb Castro Neves e lançado pela editora Intrínseca. Dei a minha impressão sobre o livro aqui, que ganhará resenha completa no blog.

***

“Na escuridão, você encontra a si próprio, passa a ser apenas ossos e exaustão e fragilidade. Na escuridão, você encontra o seu eu mais primário. Na escuridão, você encontra o fundo das trincheiras lamacentas das quais o resto do mundo só enxerga a superfície. Você verá coisas que nenhuma pessoa normal jamais verá. Coisas terríveis. Coisas misteriosas. Coisas que tentam se infiltrar no seu cérebro como uma semente de erva daninha. Que sussurram segredos macabros e horrendos que você gostaria de esquecer. Que gritam mentiras. Que querem que você morra. Que não vão poupar esforços para arrastá-lo mais e mais para o fundo e matá-lo da maneira mais terrível de todas...pelas suas próprias mãos trêmulas. (...) Você sabe que esses seres não são reais, mas, quando se está no buraco negro e lamacento com eles, são as coisas mais reais que existem. E eles nos querem mortos.

E, às vezes, eles conseguem.

Mas nem sempre. E não com você. (...) Você está assustado, cansado, até mesmo exausto, e talvez tenha chegado perto de desistir. No entanto, não desistiu. (...) Suas cicatrizes são como uma pele invisível,e  cada vez você aprende um pouco mais. Você aprende a lutar. Descobre quais armas funcionam. Aprende quem são seus aliados.

(...) Às vezes, você luta valorosamente com os punhos e com palavras furiosas. Em outras ocasiões, luta enroscando-se até virar uma bola minúscula, evitando os monstros e o resto do mundo. E, às vezes, luta desistindo e pedindo a ajuda de outra pessoa que pode lutar por você.”


“Tenho uma pasta com uma etiqueta onde está escrito: ‘A Pasta dos 24′. Dentro dela há cartas de 24 pessoas que estavam no processo de planejar seu suicídio, mas que pararam e procuraram ajuda -- não por causa do que escrevi no meu blog, e sim por causa da incrível reação da comunidade de leitores que leram e disseram ‘Eu também’. Elas foram salvas por aqueles que escreveram sobre ter perdido a mãe ou o pai ou o filho para o suicídio, e sobre como fariam qualquer coisa para voltar no tempo e convencê-los a não acreditarem nas mentiras que os transtornos mentais contam. Foram salvas por aqueles que ofereceram encorajamento, canções, letras, poemas, talismãs e mantras que já haviam funcionado com eles e que talvez funcionassem para um estranho em necessidade. Há 24 pessoas vivas hoje que ainda estão aqui porque outras pessoas tiveram coragem de falar sobre suas lutas ou compaixão suficiente para convencê-las do seu valor, ou simplesmente disseram: ‘Não entendo a sua doença, mas sei que o mundo é melhor com você aqui.’

Toda vez que eu me perguntava como qualquer um deles poderia algum dia ter pensado que a vida seria melhor sem eles, me lembrava de que essa é a mesma coisa contra a qual luto quando meu cérebro tenta me matar. Assim, eles me salvaram também. É por isso que continuo falando sobre transtornos mentais, mesmo que isso possa afastar certas pessoas ou signifique que algumas delas vão me julgar. Tento ser honesta a respeito da vergonha que sinto, pois com a honestidade vem o empoderamento. E também a compreensão. Sei que se subir num palco e tiver um ataque de pânico posso me esconder atrás do pódio por um minuto sem ninguém me julgar. Eles já sabem que sou louca. E continuam me amando apesar disso. (...) Porque há algo de maravilhoso em aceitarmos os defeitos de alguém, especialmente quando isso nos dá a chance de aceitar nossos próprios defeitos e ver que são eles que nos tornam humanos.

Tenho receio de que outras crianças zombem da minha filha quando tiverem idade suficiente para ler e conhecer a minha história. Às vezes me pergunto se a melhor coisa a fazer não seria simplesmente ficar quieta e parar de acenar a bandeira de ‘fodida da cabeça com muito orgulho’, porém não acho que eu vá largar essa bandeira até que outra pessoa a arranque de mim.

Porque desistir poderia ser mais fácil, mas não seria melhor.”

***

Acompanho o post com uma musiquinha do Radiohead:

Vá com calma. Há uma saída.




As aves nunca morrem entre as nuvens, Rodrigo Menezes


Não me sinto à vontade para fazer resenhas de obras de amigos, em geral. Prefiro conversar com eles e publicar entrevistas, para que eles mesmo digam sobre seus trabalhos o que gostariam de dizer. Não significa que nunca tenha feito, mas sempre acredito que minha opinião pode ser parcial, principalmente se eu souber em que contexto seus trabalhos foram feitos. Isso não significa que eu não saiba separar as coisas: quando me mandam em primeira mão, eu faço comentários sinceros sobre o que gostei ou não, o que acho que funcionou ou não, e não me sinto na obrigação de inflar algo de que eu não tenha gostado muito. Da mesma maneira que eles também não sentem a menor obrigação de ler ou compartilhar meus textos. Não somos assessores uns dos outros.

Digo isso porque meu amigo Rodrigo Menezes lançou mais um livro esses dias, o que foi uma surpresa até para mim. Muito recluso, ele não costuma divulgar seu trabalho, nem inundar as redes com o que produz. Eu não fazia ideia de que ele estava escrevendo um livro, embora tenha visto uns dois poemas desta seleção em seu blog. Ele me mandou sem dizer nada, eu li e fui logo dizer a ele que deveria procurar uma editora: havia escrito o seu melhor livro até então. Não significa que seja um livro inteiramente perfeito; algumas arestas podem ser aparadas aqui e ali e eu creio que olhares mais profissionais podem ajudá-lo nisso. De qualquer forma, fiquei bastante impressionada com a contundência dos poemas - diretos, algumas vezes crus, algumas vezes sarcásticos, mas dotados de grande sensibilidade e escritos sob um olhar astuto e atento.

Divido em O vôo e O tiro, o livro traz poemas sobre ingenuidade, ilusões, ausência e embotamento, evitando escorregar na autopiedade e no melodrama. Há ainda espaço para temas como o lado obscuro das cidades e questões existenciais, com direito a uma provocação 'Anti-Butler'. Um livro cujo tom é o da transição, como alguém que procura aceitar o encerramento de um ciclo, sem saber muito bem o que está por vir.
 
Abaixo, um dos poemas desta nova leva, que escolhi por identificação:


Do prefácio:

A compilação de poemas reunida nas páginas seguintes marca o término de um ciclo pessoal na vida e na escrita. Como quase tudo no plano da realidade cotidiana, este livro tomou uma forma totalmente diferente da que havia inicialmente planejado, seguindo contornos inesperados e, ao mesmo tempo, familiares. O bloco de versos que apresento aqui, desta vez, exibe em seu interior duas linhas distintas perfeitamente perpendiculares, conotativas de uma brusca ruptura temática, metafórica e ao mesmo tempo real, que o acomete.
 
As aves nunca morrem entre as nuvens, assim como todo o restante do trabalho de Rodrigo, está disponível para download em seu blog Catarse Terapêutica (clique aqui).
 
 As aves nunca morrem entre as nuvens
Rodrigo Menezes
55 páginas
Independente
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mais sobre Rodrigo Menezes no blog:

Entrevista: "Ser poeta independente é um workshop de autoestima" (aqui)
Lançamento: Catarses e Levezas (aqui )
Prefácio de Caosmo, por Renata Arruda (aqui)
"Rosas colhidas, dores sentidas e lições aprendidas", por Rodrigo Menezes (aqui)

 

52 FILMES DIRIGIDOS POR MULHERES: MÊS #4




Depois de um hiato de dois meses, volto ao projeto com os filmes escolhidos em agosto.

Continuo postando as dicas no Instagram, usando a hashtag #ProsaFilmsByWomen e também no Tumblr.


Eu sou Ali (I am Ali, EUA, 2014)
⭐⭐⭐ 

Documentário a respeito da vida do grande pugilista Muhammad Ali, falecido em junho. Ali ficou famoso não apenas por ser um dos mais rápidos boxeadores como por seu envolvimento em questões humanitárias, arriscando sua carreira ao se recusar a ir para a guerra do Vietnã e questionando o lugar do negro na sociedade americana, se aliando aos movimentos de luta pelos direitos civis. Dirigido e roteirizado por Clare Lewins, o documentário foi gravado enquanto Ali já definhava pelo Mal de Parkinson que o mataria, e traz diversas gravações de Ali em áudio e vídeo, além de entrevistas com sua família, amigos e colegas de trabalho. É um filme muito caprichado, bem escrito, bem montado, mas funciona mais como uma homenagem, evitando se aprofundar em temas muito delicados. Alguns dos erros e defeitos de Ali estão lá, mas a diretora evita temas muito dramáticos da biografia dele. Mesmo assim, vale o registro.


Trabalhar Cansa (Idem, Brasil, 2011)
⭐⭐⭐ 

Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o filme é um suspense psicológico que transforma em filme de terror os problemas da classe média convencional, como o desemprego, o sonho do empreendedorismo, o tédio. A protagonista, que a princípio parece uma doce e determinada dona de casa, logo se torna uma insuportável tirana, a medida que as coisas não saem exatamente como ela deseja. Interpretei como uma. grande paródia de filmes de terror, uma metáfora buscando escancarar (literalmente) os esqueletos escondidos e as máscaras sociais. É uma boa novidade no cinema brasileiro, mas mediano em geral.


Meu rei (Mon roi, França, 2015)
⭐⭐⭐⭐⭐

Meu Rei é um drama francês que retrata um relacionamento abusivo de forma muito sensível e inteligente.

À primeira vista, o cartaz pode passar a ideia de um filme romântico. Mas basta olhar com atenção para perceber que enquanto ela parece estar totalmente entregue, por baixo, quase sem que possamos ver seu rosto e reconhecê-la, ele domina o quadro com uma expressão que se assemelha mais a uma mordida que um beijo. A inteligência do filme é esta: diferente do que pensa o senso comum, nem todo relacionamento abusivo consiste em surras, ameaças, controle, desprezo e ódio. É justamente o carisma, o cuidado e o amor que o parceiro demonstra ter que faz com que muitas pessoas se envolvam em uma relação tóxica de dependência emocional sem perceberem o quanto estão sendo manipuladas.

A diretora Maïwenn acompanha o casal por um período de dez anos, mostrando tudo passo a passo: o momento em que eles se conhecem e ele parece ser um homem maravilhoso, divertido, bem-sucedido, carismático. Em pouquíssimo tempo, já está declarando seu amor e falando em casamento. A ex é retratada como uma desequilibrada que não aceita o fim da relação; apesar disso, ele permanece amigo dela, quase um tutor. Muito divertido, ele faz “brincadeiras” de tar tapinhas nela em público, mas ela não se importa. Eles se casam. Ela quer ter um filho. Primeiro sinal de alerta: a ex tenta cometer suicídio. A partir daí, a relação começa a entrar num espiral descendente, permeado por mentiras, abandono e abuso psicológico.

Uma cena em particular me chamou atenção: quando já refeita, ele comenta que ela está diferente, e ela responde de maneira tranquila “eu voltei a ser eu mesma”. Me identifiquei principalmente por ser uma frase que eu mesma venho dizendo, depois de passar alguns anos me recompondo também de um relacionamento emocionalmente abusivo. Vi algumas críticas que diziam que o relacionamento era tóxico porque ambos faziam mal um ao outro. Não é verdade. Eles se amam, sim, mas ele destrói a estabilidade emocional dela, que passa a tentar reagir, desesperada para também ser um sujeito na relação. Merece ser conferido.


Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Idem, Bélgica/França, 1976)
⭐⭐⭐⭐⭐

Jeanne Dielman é um clássico, considerado uma obra-prima feminista, mas certamente não é para todos os gostos: com um pouco mais de três horas de duração, quase nada acontece na tela. Não há ação, não há luta, não há dramas e nem alegrias. Os diálogos são pouquíssimos. O filme é todo feito de silêncios, e sua força é sustentada pela atuação contida de Delphine Seyrig.

O longa acompanha, do início ao fim, três dias na vida de Jeanne - desde que acorda até a hora em que vai dormir. Não sabemos quem de fato é essa mulher, o que pensa, quais são seus desejos, seus medos, seus sonhos, sua personalidade. Tudo o que sabemos é que ela é uma dona de casa exemplar e uma viúva que recebe clientes em segredo diariamente para manter a si mesma e a seu filho. Metódica, Jeanne cumpre sua rotina como se fosse um ritual, sem demonstrar nenhum tipo de emoção ou reação em seus dias sempre (aparentemente) iguais.

A diretora Chantal Akerman estabelece uma atmosfera claustrofóbica, em que o espectador é levado a ir se sentindo cada vez mais incomodado e sufocado com tanto vazio e banalidade. E é justamente este que parece ser o ponto: mostrar como são vazias, banais e solitárias as vidas das donas de casa, geralmente invisíveis, mostrar como pode se virar pra sobreviver uma mãe sem emprego ou marido. Mas há uma reviravolta. Se no primeiro dia tudo sai perfeito, no segundo, eventualidades começam a atrapalhar o ritual diário da dona de casa e isso não muda no terceiro, de forma que começa a ser possível captar a crescente, mas crescente, frustração da mulher: é possível perceber que alguma coisa está para acontecer, mas não dá para prever o quê. Apesar de muito longo e maçante, não me senti entediada e assisti com interesse do início ao fim.

Pra quem gosta/está habituado/tem interesse em cinema de imersão, recomendo demais. E destaque para esse design de produção lindo.

[Momento Lifetime] A dor e a delícia de viajar


Um texto sobre viagens e perrengues - e como pode ser complicado para uma mulher se aventurar a viajar sozinha por aí. Clica aqui e leia lá no Momento Lifetime.

Obs: Esse texto utiliza trechos da minha resenha para Hoje é o último dia do resto de nossas vidas, graphic novel da quadrinista austríaca Ulli Lust.

Um agradecimento especial aos meus amigos que compartilharam e cederam suas histórias. 




Por que o Radiohead importa tanto?


Para a revista O Grito!

O texto abaixo é uma tradução autorizada do artigo de Pasquale D'Alessio* em seu site The Sound Principles. Reconheço tanto as características de carta de amor quanto as de "princípios musicais para iniciantes" da publicação, e ele foi escolhido por manter o seu foco na importância de se tratar a música em geral com menos relativismo e por chamar a atenção sobre a importância de também se abordar aspectos técnicos, ainda que de forma rudimentar, em artigos simples e acessíveis.
Antes de irmos a ele, quero ajudar a responder a pergunta do título com duas indicações de artigo. A primeira, uma resenha da Atlantic sobre o show no Madison Square Garden, o primeiro nos Estados Unidos depois de quatro anos. Intitulado como O pânico glorioso de um show do Radiohead em 2016, o texto de Spencer Kornharber chama a atenção para o fato de que "durante as duas horas e quinze minutos em que estiveram no palco" ele não deixou de pensar "na violência, morte e fim do mundo, o que significa que foi um show muito bom do Radiohead".

Já se tornou consenso há bastante tempo que Burn The Witch é sobre a paranoia levando a civilização à selvageria, mas a mensagem parece particularmente urgente com estes arranjos [de furioso rock, sem a orquestra] e, talvez, neste contexto. Depois do ataque no Bataclan, depois de Orlando, depois de Nice, ir a qualquer evento lotado significa saber exatamente o que significa, nas palavras de Yorke "um ataque de pânico". Significa se dar conta de que quando ele canta 'abandone toda a razão / evite contato visual / não reaja / atire no mensageiro', ele está dando voz a um primitivo e perigoso impulso que está em questão nessas eleições, um impulso que vem fascinando o Radiohead há décadas.
 
A segunda indicação é um artigo de James Kidd no The National sobre o encorajamento que a banda vem fazendo para que os fãs transmitam seus shows através do Periscope - inclusive oferecendo wi-fi liberado, como no caso do show feito na Islândia. No texto, ele entrevista alguns especialistas sobre os aspectos legais deste tipo de transmissão, e os possíveis prós e contras para bandas, fãs e companhias. A pensata sobre a relação entre o Radiohead e seus fãs através da tecnologia também é boa:

Eles podem ter escrito álbuns inteiros (OK Computer) interrogando os efeitos desumanos da tecnologia, mas a banda rapidamente identificou a significância, possibilidades e desafios postos pela internet, acima de tudo pela maneira de mediar a relação deles com sua base de fãs. Eles fizeram blogs sobre a sessão de gravação da sua obra-prima lançada em 2000, Kid A, que depois se tornou o primeiro grande álbum na história a ser disponibilizado grátis para streaming. [...] Graças ao acesso proporcionado por plataformas como o Periscope, um público agora pode ser simultaneamente excluído e incluído ao mesmo tempo, ausente e ainda assim, presente. Os fãs de Radiohead em Abu Dhabi podem testemunhar o momento exato em que eles apresentaram Burn The Witch pela primeira vez na Holanda, quando tocaram a nova versão de True Love Waits no piano ou quando tocaram Creep pela primeira vez desde 2009. Essa estranha colisão entre a proximidade e a distância levanta mais perguntas. Exclusividade e até privacidade ainda são possíveis com sites como o Periscope? O streaming ao vivo dilui o status de privilégio do público real que acredita estar participando de um evento único?



Agora vamos à questão proposta por Pasquale D'Alessio: Por que Radiohead importa tanto?

Provavelmente todos vocês conhecem o Radiohead. Os profetas do fim do mundo. A banda que escreveu "Creep". Os gênios do eletro-beat-rock-alternativo enlouquecido, ou qualquer que seja o gênero que demos a eles.

Não importa o que você pensa sobre eles, ninguém pode negar que eles têm uma carreira única em quase todos os sentidos. Mas a verdadeira razão pela qual o Radiohead importa, além das suas ideias inovadoras de mercado, ou sua constante reinvenção dos ideias estéticos e de mercado, é pelo o que há em sua música.

Sim, Noel Gallagher, o hype é justificado. Não basta dizer que eles são bem-sucedidos por serem únicos. Há toneladas de bandas que são únicas, mas nenhuma conseguiu atingir totalmente as conquistas de Radiohead. Por que? Porque isso diz respeito à música em si mesma.
E eu faço questão de grifar isso porque a música é um desses assuntos que infelizmente sofre dos terríveis efeitos do relativismo. Em outras palavras, sofre da noção ou da ideia de que tudo é relativo. De que o que significa uma canção do Radiohead e o significa uma canção de Justin Bieber depende da subjetividade do ouvinte. E isso não é verdade. A música existe do lado de fora do ouvinte - quando eu ouço a Nona Sinfonia de Beethoven, eu sei que se trata de uma obra-prima. Mesmo que todas as pessoas no mundo odiassem, continuaria sendo uma obra-prima. Mas as pessoas não odeiam. Por ser uma obra-prima.

O mesmo pode ser dito, em vários níveis, sobre cada álbum do Radiohead, especialmente sobre tudo a partir do Ok Computer até A Moon Shaped Pool, o mais recente e mais um tremendo feito deles. O motivo pelo qual a técnica musical e a estética do Radiohead são magistrais reside no fato de que eles entendem as sutilezas da escrita, do arranjo e da gravação, assim como a importância de se posicionar culturalmente. Eles acreditam em sua música e fazem declarações através dela.



Falando como um músico e compositor, eu gostaria de tentar quantificar isso mais especificamente, dentro dos parâmetros que um texto de blog permite.

Eu acredito que há três facetas principais que definem grandes compositores e letristas. Técnica, Fluência e Alma. Toda a minha filosofia é baseada nisso. Técnica, eu defino como a habilidade de executar de forma coerente uma ideia musical difícil, a saber: praticando escalas que te deixarão bom em solar. Fluência é a habilidade de transitar através de diferentes gêneros musicais, aprendendo as diferenças sutis no processo. Alma é a habilidade de estar em contato com aquela parte da música que está além do mundo material. É a conexão com uma inteligência de ordem mais elevada que permite a inspiração necessária para dar um sentido mais profundo à arte e à vida. E finalmente, a última peça seria ter uma mente aberta e vontade de arriscar. E o Radiohead não apenas preenche todos os critérios, mas os ultrapassa de várias maneiras.

Pense em quando eles resolveram deixar as guitarras de lado em Kid A, e mudar para uma direção completamente diferente. Em várias entrevistas nós vemos que essa mudança foi difícil para os membros da banda, mas essa luta interna foi quase necessária para que uma ideia nova emergisse. É desnecessário dizer que o Kid A foi um momento decisivo na carreira deles, e eu pessoalmente acho que nenhum deles teria feito nada diferente. Isso deu a eles uma aura e uma mística de que eram capazes de fazer mais do que se espera de uma banda. Mas não termina aí, a impressão que temos é a de que eles tratam quase todos os aspectos do seu processo criativo com o mesmo senso de escrutínio e intensidade. Os acordes mais básicos são quebrados, trocados, manipulados de forma a nos fazer pensar que são completamente diferentes. Mais impressionante ainda é ver como uma canção era antes de ser trabalhada. Lotus Flower, por exemplo, indo do violão de Thom Yorke à música dançante que conhecemos.

Em termos de fluência, em que outra banda nós ouvimos arranjos de cordas Bartókianos tão bem dominados como em Burn The Witch, que sem dúvida surgiu do amor intenso que o guitarrista Jonny Greenwood nutre por Messiaen, Penderecki e outros mestres do século 20. É claro que essa mesma banda também pode fazer nos dar o rock convencional de Bodysnatchers, My Iron Lung ou The Daily Mail, e ainda se aventurar pelo folk, o dance, o electro e o avant-garde.

Em termos de técnica, que outra banda usa moduladores comuns (o método usado para mudar as notas abruptamente) com tanta proficiência como Thom. Ele chama isso de seu "truque", ainda que eles não apenas mudem de notas, eles conseguem usar de uma forma heterodoxa, não vista comumente na música pop. Pegue Sail to the Moon, por exemplo: em apenas vinte segundos de música nós já oscilamos entre dois tons e uma cadência. A intro insiste que estamos em C maior e de repente os versos começam em A menor. As músicas da banda são incrivelmente organizadas em termos de harmonia e sintaxe, que são a base para explicar os motivos que as composições nos afetam da forma que afetam. Tensão e resolução, coisas as quais os compositores do século 19 dominavam tanto. Outra grande técnica que eu noto é como eles se distanciam da home key no post-chorus, apenas para retornar chegando à conclusão com a maior força. Eu sei, um monte de abobrinha...mas ouça o efeito que isso tem em Lotus Flower quando chegamos em ...slowly we unfurl as lotus flower e aí chegamos em ...listen to your heart. Dá vontade de morrer com tanta beleza. Sério.



É verdade que muitas canções fazem isso, mas nem sempre de maneira tão eficiente. Porque aqui nós temos a sensação das coisas convergindo: a letras, a voz na escala 3-2-1, o efeito vocal na produção e o retorno do riff. Música tem a ver com as relações internas das ideias e as relações com o ouvinte - Radiohead é capaz de transmitir ideias complexas ao público sem que seja um desafio ouvir o que há na essência.

Em termos de alma, a sensibilidade da banda é profunda. Assista a qualquer performance das sessões do From The Basement e veja como eles se entregam à música. Sendo eu mesmo um cantor, não consigo expressar quanto é importante se entregar à performance - se abandonar completamente à música que está diante de você, mesmo que você seja uma parte minúscula dela. Com o tipo de intensidade com a qual eles tocam, você sabe que estão conectados a algo que vai além deles.

Se eu tivesse que imaginá-los como escrevendo uma filosofia, provavelmente poderia resumir assim:
não só {insira aqui}
não só {essa progressão}
não só {4/4}
não só {um som de synth}
não só uma banda.

Então por que Radiohead importa tanto? Simples. Eles nos mostram o que significa ir além de apenas compor música. Eles nos mostram como ultrapassar os limites de uma estética intuída, como desenvolver técnicas e uma voz pessoal. Eles nos mostram que há mérito em tudo o que você ouve e que a música pode ser algo que vai além da música de fundo ou da dança. Claro, eles também fazem esse tipo de coisa, mas eles nos trapaceiam com aquele beat às vezes delinquente; com a melodia guiada pela alma, as progressões fáceis de notas, que nos levam a um mundo de melodias distorcidas, mudando constantemente de sintaxe e com uma dignidade musical descompromissada.
Eu sempre considerei os mestres dos séculos 18 e 19 como os grandes padrinhos da música, aqueles que nos levam o mais próximo de alcançar o éter musical infinito; mas eu posso dizer com segurança que entre algumas outras bandas do século 20, o Radiohead merece um lugarzinho ao lado dos compositores favoritos de Jonny, um lugarzinho nos anais da história e um capítulo, se não um volume, na Grande Tradição da Música.

Eles importam porque nos mostram que isso não é música.

*Pasquale D'Alessio é cantor de ópera, compositor, e pianista, além de fundador do site The Sound Principles e editor do Redux Media.



Turnê

O Radiohead está rodando o mundo em uma turnê que vai até outubro. Segundo Jonny Greenwood, 60 músicas foram ensaiadas para esta turnê - até o momento, 53 delas já foram tocadas. Abaixo você pode conferir uma playlist com o setlist.

Note que:

- A maioria dos shows começam com a mesma sequência de abertura de A Moon Shaped Pool, embora "Decks Dark" e "Desert Island Disk" tenham sido cortadas de alguns shows recentes;

- O setlist costuma ser composto de 24 músicas; na playlist abaixo as músicas listadas até "Creep" são as que aparecem com mais frequência nos shows;

- De "Climbing up the walls" até "True Love Waits", estão as músicas tocadas pouco mais de uma vez, e de "Glass Eyes" em diante, são aquelas que apareceram uma única vez até o momento. A playlist será constantemente atualizada até outubro.

Há uma grande expectativa para que o Radiohead faça shows no Brasil no ano que vem - espera-se que a banda apareça como headliner do Lollapalooza. Fica aqui a torcida!



Tatuagem: não é coisa de mulher? + Entrevista com tatuadoras

Essa foi uma das primeiras matérias que eu escrevi e, por algum motivo, não fui capaz de encontrá-la aqui no blog e nem mesmo no local onde originalmente foi publicada - no site da Universidade Livre Feminista. Por sorte, achei em um antigo blog que eu mantinha, e resolvi passar para cá, sem revisão nem nada, como forma de arquivá-la.

Portal Tattoo, 2009

Esta é uma das principais formas de expressão pessoal. Atualmente, mais do que a música, a variedade de estilos e as razões por trás delas podem dar uma visão geral do que está acontecendo na sociedade.” 

Até alguns anos atrás, pessoas tatuadas eram marginalizadas pela sociedade. Ainda existem empresas que se recusam a contratar pessoas tatuadas e profissões onde elas estão impedidas de aparecer. Resquícios de uma Idade Média onde a Igreja Católica baniu a prática, considerada demoníaca por “vandalizar o corpo”. Depois, os marinheiros ingleses passaram a difundir a prática pelo mundo, reproduzindo suas aventuras nas figuras de caveiras, monstros marítimos e embarcações. Por uma questão social, a tatuagem acabou se tornando popular entre os guetos, prostíbulos e outros lugares frequentados por bêbados, encrenqueiros, prostitutas e marginais. Em 1879, a Inglaterra passou a adotar a tatuagem como forma de identificação de criminosos. O preconceito ficou mais do que estabelecido, de maneira que não apenas a “escória” fosse vista como adepta do “vandalismo”, mas pessoas tatuadas também passaram a fazer parte das atrações de circo, chamadas de freak shows. 

“A popularidade da tatuagem durante a última parte do décimo nono século e na primeira metade do século XX, deveu-se muito ao circo. Quando o circo prosperou a tatuagem prosperou. Por mais de 70 anos todos os importantes circos empregavam muitas pessoas completamente tatuadas. Alguns foram expostos como atrções incidentais ao lado de outros performances tradicionais, como malabarismos e engolir espadas”

E neste meio, duas mulheres destacaram-se: Jean Furella e Betty Broadbent. Furella, anteriormente Mulher Barbada, resolveu raspar toda a barba e tatuar todo o corpo (para permanecer no circo) após se apaixonar por um homem que não a queria com pelos no rosto. Já Betty Broadbent, se apaixonou pelas tatuagens de Jack Red Cloud e chegou a ter mais de 350 desenhos pelo corpo. Estamos falando aqui de uma mulher que começou a se tatuar nos anos 30! No final dos anos 60, Betty resolveu se tornar tatuadora profissional. Justamente em uma época onde estava aceso o espírito de rebeldia e rock and roll, o que contribuiu bastante para a popularização da arte, principalmente nas décadas seguintes.

Estamos tão acostumados a ver pessoas com tatuagens no corpo, que nunca teríamos imaginado a realidade das pessoas tatuadas no começo da expansão pelo mundo desta, assim chamada hoje, arte.
Não demorou muito para chegar a vez das mulheres, as quais ao mostrar a pele nua e desenhada em uma época na qual era terrivelmente vista a nudez, convertia-se na melhor atração para os homens, os quais deixavam-se levar pelos seus mais baixos instintos com total consentimento da sociedade. Foi essa excitação dos vitorianos que encheu os cofres dos circos, e as mulheres tatuadas converteram-se nas melhor pagas estrelas do espetáculo.

Finalmente, no século XX, as tatuagens passaram a serem normais, conta o site Arte no Corpo
Talvez a “tara” dos vitorianos seja a explicação do por quê hoje, ao fazer uma rápida busca pela internet, você encontre mais sites ressaltando a sensualidade de uma mulher tatuada do que encontrando informações sobre as profissionais que atuam neste ramo, por exemplo. Tatuagem ainda é vista como uma profissão masculina, embora esta realidade já esteja mudando. Quando eu comecei a tatuar (em 1990), a tatuagem ainda estava saindo da adolescência, era uma arte não tão desenvolvida como hoje.

Não havia informação e haviam poucas mulheres no mercado. O preconceito contra tatuagem ainda era grande, pouquíssimas mulheres tinham tatuagem, era um cenário bem underground. Hoje a tatuagem está bem popularizada, o preconceito contra a tatuagem diminiu ao mesmo passo em que as pessoas se familiarizaram com o processo. E a imagem do profissional mudou também. Hoje tem gente que leva o filho para fazer curso de tattoo porque acha que é uma boa profissão a seguir. A minha mãe achava um absurdo
“, conta a tatuadora Mallu Santos, uma das pioneiras no Estado de São Paulo, que, em 2009 resolveu organizar o evento TattoGirls, sem fins lucrativos, com o objetivo de “mostrar todo o potencial do talento feminino como nas produções de art fusion (quando duas ou mais artistas trabalham numa mesmaobra).”


Sobre a motivação do evento, Mallu desabafa: “Nosso meio ainda é 80% masculino. Ainda temos muita gente que chega no estudio, nos olha e pergunta: o tatuador está? Ou quando sabe que eu sou tatuadora pergunta, seu marido tatua também, não é? Como se eu vivesse na sombra de um marido tatuador. Eu não sou feminista, mas a sociedade é muito machista. Nós precisamos mostrar com naturalidade que existem muitas meninas com trabalhos lindos e tornar a mulher tatuadora uma coisa bem popular”.

E não apenas isso. O evento também contou com a participação da ONG MulherViva “já que muitas tatuadoras sofrem violência. Estamos aqui para dar todo o suporte.”, declarou a coordenadora Naiá Duarte. Sobre a inclusão da ONG, Mallu conta que “no evento eu coloquei uma ong que defende mulheres vítimas de violência, porque elas são vidas solitárias. Eu tive uma grande amiga que morreu assassinada pelo ex-marido e isso marcou demais a minha vida. Se eu puder ajudar a alertar estas mulheres e com isso conseguir salvar ao menos uma, já é uma coisa maravilhosa. Quando uma mulher é vítima de violencia ela também acaba vítima de preconceito. As pessoa já começam a pensar que ela “fez algo para merecer a surra”. A sociedade é muito machista”.

Além disso houve também o espaço “Pinup Express”, onde as visitantes receberam produção de cabelo e maquiagem no estilo Pin Up, gratuitamente, além de“palestras e workshops sobre temas importantes como câncer de pele, doenças sexualmente transmissíveis, legislação, abordando as novas normas da Anvisa, além de técnicas de tatuagem e piercing.” Mas o evento não teve nada de segregador: houve participação de homens e inclusive um homenageado. 

Mallu declarou em entrevista que nos eventos de tatuagem, dificilmente se vê mulheres expondo e que elas ainda enfrentam muito preconceito:“Se existe preconceito com a tatuagem em geral, imagine com as mulheres: a mulher sempre paga mais caro, algumas clientes se sentem constrangidas ao tatuar com homens… Em coisas assim que temos que pensar. As pessoas agem como se fosse uma ‘coisa do além’ a mulher fazer uma tatuagem bem feita e isso só pode mesmo mudar a partir da desmistificação do nosso trabalho”.

As homenageadas do evento foram as primeiras tatuadoras das regiões mais importantes do Brasil,mulheres que tiveram uma posição de destaque num cenário quase totalmente masculino, há 20, 30 anos atrás”, diz Mallu.Uma delas, Hosani Finotelli chegou a declarar: “Há 30 anos se eu falasse para alguém que um dia teríamos uma convenção só de tatuadoras, os homens ririam da minha cara”. Outra homenageada, Cláudia Macá só conseguiu dizer: “Estou muito emocionada”. 

Sobre uma próxima edição do evento, Mallu chegou a afirmar que “a movimentação não vai parar por aqui” e já tem um projeto novo que visa englobar tatuagem e outras artes urbanas, como grafite, música e dança, com o foco sempre nas mulheres. A idéia é que o evento tenha 3 pontos chave: mostra das artes – um primeiro contato com artes urbanas. oficinas de arte – para quem já conhece e quer se aprofundar no assunto e intercambio cultural – para quem já vive de arte e quer estar em contínuo aprimoramento.” Porém, um evento desse porte exige bastante investimento financeiro e Mallu declara estar em busca de patrocínio para uma próxima edição.

E a luta das mulheres para vencerem o preconceito chegou a ser matéria do Correio da Bahia, com repercussão no site Direitos Humanos, do senador Cristovão Buarque. De acordo com o texto, de 2009, a presença de mulheres tatuadoras vem crescendo maciçamente em Salvador e há quem afirme que elas já somam 20%. Mesmo assim, encontramos declarações como as da tatuadora Cell que confirma uma certa má vontade dos rapazes com tatuadoras” e de Tati, que “não viu o preconceito masculino diminuir” e tem 80% da sua clientela um público de mulheres. “Deixam as coisas simples e pequenas para as mulheres e um trampo mais elaborado para os homens”, conta na matéria.

Mas existem também quem afirme que, mesmo com algum preconceito em um primeiro momento, as tatuadoras muitas vezes são preferidas exatamente por serem mulheres e supostamente terem a “mão leve”. Porém, de acordo com Mallu, o problema às vezes está nos colegas de trabalhoAcredito que não exista dificuldade em uma menina com um bom trabalho arrumar vaga na maioria dos estúdios, ao passo que alguns tatuadores se sentem constrangidos em trabalhar para uma mulher”. Constrangimento este que muitos homens, em diversas áreas ainda se permitem sentir.

Para tentar desmistificar também alguns mitos, perguntei a algumas mulheres se elas preferiam fazer tatuagem com outras mulheres. A maioria disse não se importar com o sexo do tatuador, embora algumas admitam que dependendo do local se sentiriam constrangidas. Apenas uma mulher afirmou que se entrasse em um estúdio, iria procurar automaticamente, pelo portfólio de um homem “porque no meu imaginário tem a imagem do tatuador”. O resultado demonstra que embora certos simbolismos ainda sejam fortes na cabeça der algumas pessoas, eles estão se desfazendo para uma maioria.

Para os homens, perguntei se existiria algum inconveniente em ser tatuado por uma mulher, ou se, ao adentrar um estúdio, iriam procurar pelo portfólio de um homem. A grande maioria disse não ver problema algum em mulheres tatuadoras e alguns, inclusive, informaram que já foram tatuados por alguma mulher. Somente três admitiram que ao entrar em um estúdio procurariam pelo portfólio de um homem, ou pensariam que a moça fosse recepcionista do local ou ainda, que talvez ela pudesse ser menos experiente, por ser do sexo feminino. Mas o que todos, homens e mulheres, afirmaram categoricamente é que o importante mesmo é a indicação de algum amigo, o portfólio e as condições de higiene do local.

Para entender de vez a questão, resolvi entrar em contato com algumas tatuadoras e saber as questões da profissão e do preconceito. Reuni nesta entrevista os pontos de vista das cariocas Danielle Perrone , vencedora de cinco prêmios “duas, como melhor tatuadora e outras três nas categorias, Old school, New school e melhor Série de Desenhos Coloridos”. Danielle se especializou em coberturas de cicatrizes e tatuagens mal feitas e, fato curioso, chegou a ter um estúdio, único no Rio de Janeiro, onde só trabalhavam mulheres. Está também Anna Idza, que, como Danielle, se tornou especialista em coberturas “pela demanda” e também abocanhou 5 prêmios “sendo 2 deles como 1º lugar Categoria Colorido, 1 de melhor tatuadora do evento e um como 2º lugar Categoria Colorido e um de 2º lugar Categoria Feminino”. Por fim, mas não menos importante, a tatuadora autônona Elisa Nobre. Todas com observações interessantes sobre o ofício e a arte de se dedicar à tatuagem.



Trajetória

Danielle: Sempre gostei de tatuagem, e desde os treze anos eu já sabia que era isso que eu queria, porém minha mãe tinha medo que eu me tatuasse demais até por conta da minha idade na época, então me proibiu de aprender a tatuar, e como toda mãe, tentou achar uma carreira para mim onde se adequasse ao meu dom para o desenho, e foi por isso que estudei publicidade. Depois disso como eu já era maior de idade eu resolvi que o melhor para mim seria fazer algo que realmente eu amasse. E hoje to aqui. Não participo de todos, nem de muitos eventos, competi em alguns e tive exito na maioria dos que participei, tenho 6 prêmios em categorias variadas e isso já me basta. Não me considero uma “caça prêmios” até por que ao contrario do que a maioria imagina, esses prêmios não trazem status nem retorno financeiro e sim uma falsa fama que se não for renovada, você é rapidamente apagado do meio.
Elisa: Sempre tive aptidão pra desenho, desde pequenas eu e minha irmã desenhamos o tempo todo. Há uns 7 anos atrás eu e um amigo fantasiávamos que abriríamos um estúdio juntos, eu fazendo piercings e ele tatuando. Um tempo depois ele me indicou pra um estúdio onde estavam à procura de uma menina pra ensinar a fazer piercing, assim entrei no mundo da body art, começando, mais ou menos um ano depois, a tatuar.
Ana: Sou tatuadora desde 2005, antes eu cantava e estudava músca, tinha banda, mas a musica atualmente esta vivendo uma fase critica, comecei a tatuar pq a arte sempre foi uma coisa natural pra mim, mas nunca imaginei que iria me apaixonar tanto por meu trabalho assim. Minha maior influencia é o pintor e amigo Celso Mathias do qual pude acrescentar muito ao meu trabalho.

É verdade que as mulheres são as que mais recorrem à remoção de tatuagens? Se sim, por que isso acontece?
Danielle:Acredito que essa minha especialização se deu pelo motivo de eu ter iniciado minhas atividades com tatuadora em um local bem humilde. Na epoca aparecia de tudo. Acho que quanto mais humildes são as pessoas, menos noção de arte elas tem e acabam se marcando, apenas para dizer que possui uma tatuagem. E foi assim que consegui adquirir experiência, aprendendo na prática, tive a oportunidade de fazer coberturas e reformas com até 98% de sucesso, esses 2% de insucesso fica a cargo de verdadeiros estragos na pele, que pessoas despreparadas tem a capacidade de fazer. Mas entre meus clientes o que eu posso dizer é que os que mais recorrem a remoção são os homens, remoção a laser, eles se desesperam mais que elas, passaram por péssimos tatuadores, insatisfeitos fizeram a remoção e depois me procuraram para refazer o trabalho para cobrir a cicatriz que o laser deixa. Já as mulheres recorrem diretamente ao tatuador, fazem mais coberturas, acredito que isso acontece pelo poder economico dos homens ser maior que o das mulheres em nossa sociedade.

E a clientela, é majoritariamente feminina?
Elisa: Atendo aproximadamente 65% de mulheres e 35% de homens.
Ana: A maioria feminina
Danielle: Sim!!! Mas não é pelo fato de eu ser mulher e sim pelo crescimento da mulher na sociedade, a mulher vem quebrando tabus e se tatuando muito mais que os homens, aos poucos o preconceito sobre a mulher tatuada está se diluindo e a tendência é perecer.

Como e por que surgiu a ideia de um estúdio onde só trabalham mulheres? Pode-se considerar um viés feminista nesta decisão?
Danielle:Não considero o feminismo, até por que já abri espaço para tatuadores fazerem trabalhos como convidados, tive o prazer de ver Diego Nunes tatuando na minha loja uma vez. Os homens não são abominados por mim, na verdade o que geralmente acontece é que eles mesmos se afastam, acho que pelo fato de ser uma mulher no comando. Acredito que o que nos diferenciava, era um ambiente mais leve, pois as meninas tendem a ser mais carinhosas. Mas ter um estudio só com tatuadoras tem seu lado ruim, nos bastidores acho que as mulheres são muito mais competitivas, o que as deixavam sem noção, chegava até haver discussões no momento de distribuir trabalhos, mas eu fazia de acordo com a experiência de cada uma, na minha consepção eu não podia dar um trabalho mais elaborado a uma pessoas com pouca experiência, por uma questão ética e então tudo terminava numa guerra de egos, particularmente não gosto desse tipo de postura e atualmente por isso que me desfiz da idéia e resolvi trabalhar sozinha outra vez. Não é uma decisão definitiva, mas no momento prefiro assim.

Sofre ou já sofreu preconceito por ser uma menina?
Danielle: De familiares nunca, de clientes algumas vezes, mas eu até admito a ignorância e de colegas de profissão recentemente, coisa que eu nunca imaginei acontecer por não ter havido caso em oito anos de profissão. Mas não vale a pena nem comentar. Mas de modo geral sempre fui muito respeitada pelos colegas, esse foi um fato isolado. Acho que ele se sentiu ameaçado no momento rs!!!
Elisa: Principalmente no começo, quando não tinha muito trabalho pra mostrar, era comum as pessoas indagarem: “Você é tatuadora?” Me incomodava, claro, mas hoje em dia me garanto com o meu trabalho e falo: “Antes de formar a sua opinião, veja o meu trabalho.” Até hoje trabalhei em uns 5 estúdios diferentes, claro que a maioria de tatuadores era masculina, muitos deles deram em cima de mim no começo mas logo se tornaram grandes amigos. Ainda assim, nunca me desrespeitaram com relação ao trabalho, apesar de ter amigas na profissão que sofreram um bocado.
Ana: Para ter algum respeito dentro do meio tive de mostrar meu potencial, enfrentei muitos problemas em estúdios que trabalhei, muitas desavenças e inveja sim, mas isso só me fez querer ser melhor ainda na minha arte. Você pode justificar suas falhas por conta de muitos fatos ocorridos, ou simplesmente pode reverter a situação a seu favor.

Existe um tipo de sexismo onde o tatuador é mais respeitado, visto como o mais apropriado para o trabalho e a mulher o instrumento, que usa a tatuagem como ornamentação para se embelezar, como se fosse um acessório ou maquiagem?
Danielle:Hoje acredito que não há isso. Pelo contrario recentemente tenho atendido uma quantidade maior de homens, que procuram qualidade no trabalho, ambiente limpo e agradável. Os homens reclamam muito dos tatuadores e suas mãos pesadas e falhas de atendimento, com a falta de tato de alguns em lidar com o publico, do ambiente do estúdio, de musica alta Heavy Metal estourando os tímpanos. Uma coisa é fato, os homens são muito mais exigentes que as mulheres e quando tomam conhecimento de tudo que uma boa TATUADORA pode oferecem ao executar seu trabalho, eles não abandonam nunca. Mulheres em sua maioria aplicam carinho materno em quase tudo que faz e os homens gostam disso.
Ana: Creio que isso deva acontecer porque as mulheres tatuadoras são ainda minoria, mas aos poucos vem mostrando tanto ou até mais potencial que os caras. A profissão de tatuador é algo que começou com muita discriminação e hostilidade pela sociedade, e por estar num patamar artístico cada vez mais elevado, a tattoo vem conquistando o espaço feminino e de todos os tipos de pessoas também.
Elisa: Acredito que na tatuagem, com em muitas profissões, as mulheres estão aos poucos, conquistando o seu espaço. A tatuagem no Brasil, num passado próximo, era relacionada à marginais, maus elementos e não vista como arte, mantendo o sexo feminino de uma certa forma afastado do meio. Uma mulher como artista pode ter tanta sensibilidade ou até mais do que qualquer homem artista. Essa sexualização das mulheres tatuadas, o fetiche, creio que se deva justamente pela autenticidade e atitude de uma mulher que suporta a dor, muitas vezes mais que os homens, em nome da arte.

Acredita que a tatuagem, para a clientela feminina, está mais ligada à moda ou à arte?
Danielle:Moda sem duvida!!! A maioria delas procuram tatuagem como adorno. É raro uma mulher ver valor artistico na escolha da tatuagem, elas se preocupam mais com significados e homenagens. Na contramão dos homens que procuram trabalhos mais elaborados, se preocupam em ter uma tatuagem exclusiva, com alta qualidade artistica.
Elisa: Como a maioria das mulheres gosta de tatuagens pequenas e delicadas, estão sempre fazendo uma nova que viram na novela, ou chegam perguntando ‘o que está saindo mais, trevo ou laço?’. Mas isso também vale para homens, com a diferença que a maioria acredita que ‘homem tem que ter tatuagem grande, se não pega mal’, mas se repete a cena de fazer a mesma tatuagem que um jogador de futebol ou ator da TV. Temos que encarar o fato de que pessoas sensíveis à arte não são a maioria em nosso país.
Ana: Depende, é como se vestir: existem pessoas que se importam muito com a moda e outras que simplesmente se vestem de acordo com seu gosto próprio. A tattoo não foge disso.

Por outro lado, ainda rola preconceito da sociedade com a menina tatuada, associando à marginalidade e afins?
Ana: Vejo isso hoje em dia mais em pessoas bem conservadoras e de mais idade, e mesmo assim bem menos..cada dia que passa a tattoo se mostra mais arte.
Elisa: Sim, bastante. Eu tenho muitas tatuagens grandes e visíveis. Muita gente torce o nariz quando passo, uns elogiam, todos olham. Se a menina não tiver a cabeça feita e mente aberta vai se meter em muita confusão. Já ouvi muita gente me dizer que tenho cara de ‘doidona’ mas quando estou trabalhando e demonstro meu profissionalismo, essa impressão logo passa.

As mulheres já conquistaram espaço no diz respeito a tatuagem?
Danielle: O que eu percebo em relação a isso é que ainda há muita batalha pela frente, as mulheres que se destacam no meio são poucas, pois a maioria que já tatuam não se preocupam muito em se qualificar. Nessa profissão o aprendizado é eterno e se o profissional não se doar totalmente à arte, não há evolução.
Elisa: Em nível mundial, diria que sim, temos muitas mulheres com trabalhos incríveis e reconhecidos no ramo, como a própria Kat Von D, Lola Garcia, Angelique Houtkamp, entre outras. O Brasil está se encaminhando, temos algumas mulheres com trabalhos fortíssimos, mas enquanto houver uma convenção de tatuagens só para mulheres, continuaremos a separar o sexofeminino do todo, mesmo que sutilmente.

O que tem mudado desde que você entrou na profissão até hoje?
Danielle:Apareceram mais meninas no mercado, há mais conscientização no que diz respeito a higiene e contenção de doenças transmitidas pelo sangue e contaminação cruzada. Muita coisa melhorou e muita coisa tem que melhorar. Seria ótimo se fossemos reconhecidos como profissão, nossa responsabilidade é muito maior do que se imagina, não temos compromisso com apenas com a estética, uma tatuagem trabalha totalmente a autoestima de quem a carrega e isso é muito gratificante. Acho que merecemos esse reconhecimento. Seria uma grande vitória.
Elisa:No Brasil o que mudou basicamente, no último ano, foi a atenção da Anvisa ter finalmente se voltado para os estúdios, fiscalizando os materiais e condições nas quais os tatuadores trabalham. Isso é muito favorável para nós pois, aos poucos, a clientela vai se conscientizando da necessidade real da biossegurança aplicada de forma correta, como uma proteção à sua própria saúde.
Ana: Vejo mais meninas trabalhando e colocando a cara numa competição como eu venho fazendo desde 2007. Aliás, o grande motivo que me fez fazer isso foi justamente o fato de não ver mulheres ganhando prêmios naquela época, quis muito romper essa barreira.

Acha que o trabalho de Kat Von D, à frente do Los Angeles Ink, ajudou a desmistificar a profissão?
Danielle:Ah sem duvida!!! Ter uma tatuadora famosa na TV foi muito importante para mostrar que as mulheres também podem. O Mais interessante é que o assunto é explorado como novidade, mas nem é, quando eu estava nascendo a Ana Velho já tinha estúdio em Ipanema e fazia seu trabalho muito bem feito para a época. Também tem a Medusa que é veterana, nunca vi as mulheres no mercado de tatuagem como novidade, por já conhecer a existência de algumas mulheres na profissão, o que é realmente fato é que somos minoria, mas o motivo disso eu desconheço.
Elisa:Certamente, ajudou principalmente na desmistificação da mulher como tatuadora, já que o mundo todo pode acompanhar os trabalhos realizados por ela e suas companheiras de forma magistral. Mostrou ao telespectador todo o procedimento descontraidamente, fazendo com que muitas pessoas que sentiam medo da dor ou da desaprovação, realizassem seus sonhos de se tatuar.

Qual a maior dificuldade que você enfrenta?
Danielle: Conciliar a vida de mãe com a profissão, pois a tatuagem toma muito do meu tempo. Essa é uma das maiores dificuldades, a outra é a dificuldade de comprar material de qualidade, principalmente tintas, o governo é muito cruel e nos amarra de todas as maneiras não nos deixando muitas opções.
Elisa:O fato de o tatuador não ser reconhecido como profissional no Brasil. Esse é um passo muito grande que estamos longe de conquistar. Os direitos do tatuador como trabalhador do país, com condições justas de trabalho e reconhecimento. Muita gente me pergunta “O que você faz além de tatuar?”. Você perguntaria isso à um médico ou advogado? A sociedade ainda tem um preconceito muito grande em relação à arte no nosso país.
Ana: A sociedade que acha que a nossa profissão ainda não é algo muito certo na vida. Algo que me irritava bastante era quando achavam que pelo fato de eu ser mulher só tatuava coisas fofinhas e pequenas.

Já aconteceu de clientes entrarem em estúdio e ignorarem só pelo fato de serem mulheres?
 Elisa:Hoje em dia acredito que isso aconteça pouco. É fato que recebo muitas indicações dos meus clientes, do contrário não estaria tatuando no meu estúdio na minha própria casa, sem necessitar de movimento de loja de rua. Como disse numa resposta anterior, no começo, com pouco trabalho pra mostrar isso pode acontecer, mas com o passar do tempo, o amadurecimento do trabalho e do bom atendimento, tudo isso some.
 Ana: Já sim, mas quando eles olham o meu álbum e perguntam 10 vezes se fui eu mesma que fiz, adoro ver a cara deles (risos), isso rompe um tabu e faz as coisas serem diferentes. Não existe isso de ser homem ou mulher, se você for bom, eles tirarão o chapéu pra você e te respeitarão. Lógico que contamos com qualidades incríveis além da nossa dedicação, mas isso somente um homem que já se tatuou com ambos poderá dizer. O importante é dar o melhor de si, para fazer com que essa fase passe o mais rápido possível e que cada vez mais possamos mostrar o nosso jeito feminino e incrível de fazer as coisas.

Por fim, selecionei dois comentários de entrevistados e gostaria que comentasse a respeito:

Não acho que seja preconceito, acho que seja uma questão de intimidade. homem, na maioria, gosta de conversar com homem.. e a tatuagem tem toda o processo de elaboração e aquele período de tempo para ser feita.. acredito que quemnão tem costume de fazer, vai procurar alguém que irá compreender o que ele quer e de cara pensa em outro homem.. e sem contar que tatuagem doí pra carai que só a porra, imagina um cabrão se cagando de dor pra uma mulher.. acho que constrange..” (Rebeca Aderaldo, estudante de Audiovisual)
Danielle: Eu discordo totalmente, pois mostrar fragilidade a uma mulher é bem menos constrangedor, afinal a mulher nasceu para sentir dor e sabe muito bem o que é isso, partindo das cólicas menstruais até o parto. Eu acho muito normal o homem ser mais sensível a dor que as mulheres e isso não me surpreende. Me coloco no lugar de homem, na qualidade de macho forte, dando chilique na mão de outro homem, isso eu acharia estranho, apesar também de não achar a tatuagem um procedimento tão doloroso assim.
Elisa: Discordo completamente. Tenho muitos clientes homens que se sentem completamente à vontade comigo, mesmo por horas a fio e estes indicam amigos e familiares. Acho que se a mulher mostrar profissionalismo e um bom trabalho, qualquer ser humano que se sinta atraído pela arte dela, vai querer um trabalho dela no próprio corpo. Há também o fato de muita gente achar que as mulheres tem a ‘mão mais leve’, sendo mais sensíveis e infligindo assim, menos dor no tatuado. Claro que isso é relativo, conheço muitos homens tatuadores com ‘mãos de fada’ (eles aliás detestam esse termo, obviamente). Isso pode ser relativo também, eu sempre tive facilidade em conversar com qualquer tipo de pessoa, seja qual for o sexo, opção sexual, faixa etária ou classe econômica.
Ana: Olha te digo que tem homens que preferem muito mais sofrer nas mãos de uma mulher…rs Dizem que somos mais pacientes, detalhistas e até que a mão é mais leve. Daí vai de cada um.

“Mas acho q preferiria fazer com mulher, que geralmente tem a mão mais leve e mais cuidado com traços e nuances de cores. Mais vocação artística, eu até diria.” (Rodrigo Gomes, estudante de Engenharia Química)
Danielle: Acredito!! Em todos esses anos de experiência é o que eu mais ouço dos homens mesmo. Acredito que as mulheres se apeguem mais a detalhes. Mas quanto a vocação artística, isso é uma atribuição do ser humano independente de sexo.
Elisa: Acredito que se trate mesmo de uma questão de preferência, se você observar o trabalho do pintor Celso Mathias, vai perceber a sensibilidade e intimidade que ele tem com as cores e formas. Tanto homens quanto mulheres tem sensibilidade perante a arte, cada um da sua forma, formando um leque gigantesco de possibilidades de escolha pra tatuagem específica que cada pessoa deseja fazer. Creio que seja o mesmo que perguntar à uma mulher se ela prefere se consultar com um doutor ou uma doutora, vai da preferência de cada um.
Ana:São opiniões, que devem ser respeitadas, esse foi o ponto de vista não só dele, mas de muitos que me procuram aqui.

Curiosidades:
As mulheres são quem mais recorrem à remoção de tatuagens.
20% das mulheres tatuadas têm uma tatuagem na zona lombar.
O número de mulheres tatuadas quadruplicou entre 1960 e 1980.
Para fotos de mulheres tatuadas do início do século XX, clique aqui